quinta-feira, 30 de julho de 2009

DYLAN*

                                                   BOB DYLAN *

  Escritos da revolução permanente.

Pelo sim
Pelo não
Bob Dylan é um talento original.




Doctrine : “Enquanto tiveres pés para andar, há de haver montanhas para escalar.”
(Bob Dylan)
* DÉCADA /80 -

Esta é a relação dos albúns que me fizeram chegar ao Mr. Tamborine Man , pelo qual fiz a tradução,versão para a gravação em São Paulo.




1º música :* Song to Wood /(Bob Dylan/1962/ 1ºalbúm) canção feita para o mestre Wood Gythrie
“ Bob” conheceu” Wood” em 1962/ Nova Yorque no hospital.







2º* Freewheelin (1963/ 2º albúm) tudo muda com este disco ,mudou a natureza da canção popular,transformou as palavras em armas.
Blowin in the wind tornou-se o hino do movimento de protesto americano.
“ Levanta-te de manhã e caminha de Olhos bem abertos. “ (Bob Dylan)




3º Masters of War/ vem na mesma linha de ataque a uma sociedade que faz crer que as guerras são necessárias para se conseguir certa liberdade fictícia . Senhores da Guerra em que Dylan pela primeira vez diz que deseja que morram “Espero que morrais/ E que a vossa morte chegue depressa”.
4º A Hard Rain’s A Gonna Fall / Uma canção de desespero /Foi escrita durante a crise dos mísseis de Cuba (1963)./O Mundo nunca esteve tão perto de um conflito nuclear.
A linguagem desta canção é fúnebre.A visão a beira de um abismo.
5º Oxford Town / É um ataque satírico a segregação racial nas pequenas cidades do sul dos EUA, como que uma canção reportagem.
6º/ 1963 /Bob Dylan /Participa do Festival de New Port e torna-se o Leader incontestado do movimento nascente da canção americana de intervenção.Uma nova consciência despertava apesar da histería da beatlemania.

7º* The Times They Are a- Changin’( É o seu terceiro albúm (1964))

Este albúm fecha o ciclo do Dylan propagandista e documentarista musical.
Dylan foi mais duro,mais sério,e também mais contraditório nas suas concepções sociais.Dylan antecipou o espírito da contracultura.


8º With God On Our Side /Esta música é um monumento fundamental deste disco .( disco/ The Times Are/iten 7) ,é uma das canções mais politizadas e pessoais de toda obra de Dylan .
A letra descreve as páginas mais obscuras da história Americana.



9º *Another Side of Bob Dylan / Editado 1964/ 4º albúm ruptura/Dylan tinha desertado da política e então começa a cantar canções pessoais. A cena musical ainda estava digerindo os seus albúns anteriores. A música Motorppsyco Nightmare , poema surrealista, fala com humor das aventuras de um vagabundo por uma das zonas mais reacionárias dos EUA,o Midwest.





10º* Bringing it All Back Home (5º albúm /1965) Foi um escândalo,uma parte do disco era acústica ,outra era elétrica,tendo permanecido em Londres Dylan ouviu todos os grupos:Beatles, Stones,Animals,Who. Dylan regressa a Nova Yorque com idéias novas e impressionado com o potencial da instrumentação e abre um novo caminho na música americana.Foi chamado de traidor e facista no festival de Newport, templo da música folk . Dylan tinha traído a causa politicamente e artisticamente.


11º A música/ Bob Dylan 11th Dream é uma canção onírica,alucinante através de uma América povoada por homossexuais,anões e prostitutas.Faz parte do albúm 5º de sua carreira( 10º item).


12º Mr. Tamborine Man /É um hino ao êxtase da música, a cor, as drogas/
É um escape da realidade e que se convencionou chamar “real”.
Dylan canta os músicos ambulantes, o senhor da pandeireta que nas ruas de Greenwich Village vendia” chocolate” cabeça de negro , escondidos nas cavidades do pandeiro.Dylan entrava num novo paraíso,em que o escape para parte alguma fazia romper todas as teorias políticas. A esquerda puritana podia ficar com Deus ao seu
lado.


13º It’s All Over Now, Baby Blue É a canção final e essencial deste Álbum
( item 10º ) Quem é Baby Blue? A explicação mais aceitável é que é uma nova projeção do próprio Dylan, um adeus reiterado ao seu antigo personagem, assim como ao seu antigo público, comprometido com a luta , mas eu acho que esta cançaõ pode ter sido a história de uma prostituta que começa uma nova vida.



14º *Highway 61 Revisited ( 6º albúm / 1965)/Este disco é a ruptura total,é um disco de rock. Dylan aparece acompanhado por alguns dos melhores músicos da cena rock. É considerado pelos experts ,uma das obras primas da música rock.







15º Like a Rolling Stone , foi considerada a canção mais explosiva, jamais gravada em vinil. Nunca antes se tinha conseguido verbalizar um texto tão complexo com um acompanhamento musical tão perfeito. Canção com 6 minutos .A mais requintada de Dylan,ela conta a história de uma garota que nas praias douradas de sua estupidez, pensava que pedir para comer era uma pose estética dentro das novas formas de expressão, até ver-se mendigar pelas ruas de N.Yorque,completamente só e perdida. Ela se sentia invisível dentro de uma cidade monstruosamente organizada. Assim a bela princesa, sem cavalheiros nem palhaços , tinha que ir para a saída do metrô e pôr-se à disposição de qualquer comprador de prazeres carnais.
(item 14º/ 6º albúm)


16º Highway 61 Revisited / É uma viagem pela estrada 61/
Uma viagem através da violência nos EUA. Inclusive nas íntimas e felizes
relações familiares/ (item 14º/ 6º albúm)


17º Tombstone Blues/ Dá-nos uma visão dos limites em que se desenvolve a vida contemporânea.Dylan, introduziu-nos numa serie de contos localizados em lugares históricos simulados e criados para o efeito. Quem imagina São João Batista a
torturar um ladrão,pois em Tombstone o comandante decidiu que o sol não é amarelo, e quem duvidar irá para o corredor da morte. Quem tem demasiado poder obriga seus lacaios a acreditar em histórias ridículas e não existe mais nada senão uma eternidade em termos de ignorância. (item 14º/6º albúm)



18º* Blonde To Blonde ( 7ºalbúm /Setembro 1966)
Os críticos emudeceram.Os músicos declararam que aquilo era insólito.Dylan foi considerado a figura mais genial dessa década de rock. Era um intrincado concept-album percorrendo todo seu universo pessoal, fluindo do caos e da desordem surrealista embebido ainda de uma empolgante visão poética e de uma envolvente sensualidade. Este album duplo é unanimente considerado o melhor de toda a obra de Dylan e, para muitos o melhor de toda a música rock.


19º Rain Day Women nºs 12 & 35 / Dá-nos, de certo modo, uma visão das relações sociais através de um jogo de palavras provocado pela repressão cultural. A mesma palavra (stoned)designa literalmente apedrejado, mas designa também, na linguagem da contracultura, alguém que está sob o efeito da droga, ou seja “pedrado” ou “com uma pedra”. Dylan diz na música –“ Toda gente devia apanhar uma pedrada”.
Se antes tinha cantado os seus sonhos de poeta social agora estava dentro de um círculo de pessoas que tinham perdido toda a esperança de uma mudança social para se refugiarem na gratificação dos sentidos que a música e as pedras lhe proporcionavam. ( 18ºitem/ Albúm 7º)


20º Leopard-Skin Pill-box Hat /Uma canção de humor devastador de Dylan atinge um dos seus pontos culminantes. (18ºitem/Albúm7)


21º Sad-Eyed Lady of The Lowlands/ É por muitos considerado a obra prima dentro da obra prima. É uma longa balada de mais de onze minutos preenchendo toda a quarta face do álbum.É um poema muito opaco, com um sentido e direção muito próprios,
mas extremamente dfícil de compreender. Fica o fato que só muito raramente uma mulher de sonho terá sido descrita com uma beleza tão selvagem.Na verdade é um Dylan desesperado e uma América cada vez mais putrefata.
.

22º* John Wesley Hardin ( 8º álbum) (janeiro-1968)
Um ano e meio depois de “Blonde”.Dylan tinha sofrido um grave acidente de moto ,tendo fraturado o pescoço. Ficou mais de um ano fora da cena musical.Dylan se desgatou muito neste ano que ficou fora com drogas pesadas (LSD e Heroina). Neste disco algo tinha mudado nele irreversivelmente. Este disco conta a história de um bandido e o poema esta tão repleto de alusões(referindo-se a ele mesmo) que , pelo seu simbolismo supõem-se autobiográfico.




23º All Along The Watchtower/ É um poema denso parecendo encerrar as palavras de um homem que se teria vendido ao sistema. (item 22º)(8ºalbúm)


24º Drifter’s Escape/ É Dylan perante os seus juízes, desta vez num Tribunal.



25º* Nashville Skyline(9º albúm)(1969) De um fulgor original,como folhas de relva,com estrelas,com Montanhas.Lp que marcou a minha vida para sempre, O clássico “GIRL FROM THE NORTH COUNTRY, se tornou um hino folk nos EUA.,(A garota
que Veio do Norte) ,LAY LADY LAY (Deite-se, Senhora, Deite-se) TELL ME THAT IT ISN’T TRUE (Diga-me que não é verdade) e a Balada TONIGHT I’LL BE STAYING HERE WITH YOU ( Esta Noite ficarei aqui Com Você ) Foi um disco com estrelas, e com alma Dylan encerrou Década de “60” com a cicatriz fechada.


Bob Dylan, semeou com sua obra uma das épocas mais empolgantes da história da música . O trabalho de Dylan ficará escrito nos fatos da década de sessenta que mudou o Mundo; o louco circo da cultura e das subculturas”.Se eu não tivesse passado por ela , não acreditaria que ela tivesse existido”.
Bob Dylan farejou tudo, foi um porta voz desta era (anos 60) da vida Americana,
"A década do eu”, como Wolfe a descreveu.



CANÇÃO PARA WOODY

Bob Dylan
A tradução da primeira música que Bob fez para o músico que o
acordou / WOODY GYTHRIE


Aqui estou a muitas milhas de casa/
Seguindo uma estrada que outros homens percorreram/
Vendo o teu mundo de pessoas e coisas/
Os teus pobres e camponeses e príncipes e reis/


Hey, Hey, Wood Gythrie, escrevi uma canção pra ti/
Sobre um estranho muito velho revelando-se a meus olhos/
Parece doente e tem fome e cansaço e está em pedaços/
Tem ar de moribundo e ainda agora nasceu/


Hey, Wood Gythrie, mas eu sei que tu sabes/
Tudo o que eu estou a dizer e muito mais/
Canto para ti e não digo o bastante/
Pois poucos homens há que tenham feito o que fizeste/


Aqui saúdo também Cisco e Sonny e Leadbelly/
E toda a gente boa que contigo viajou/
Saúdo os corações e as mãos dos homens/
Que surgem com a poeira e partem com o vento/


Vou-me embora amanhã, mas podia ser hoje/
Pela estrada fora num dia qualquer/
A última coisa que me agradaría fazer/
Seria dizer que também percorri um duro caminho/
- Fim –


Bob Dylan, no final de 1961 chega finalmente a Nova Yorque para ver Woody Gythrie, então hospitalizado. Bob sempre viu nele um talento excepcional. Wood, se emociona e lhe dá inúmeros conselhos e sua amizade.
Robert Allen Zimmerman, seu verdadeiro nome, nasceu a 24 de maio de 1941 em Duluth, Minnesota/EUA. Mudou, em 1960 o seu nome para Bob Dylan (de Dylan Thomas/ poeta americano)


- Mr. Tamborine Man -
Esta pesquisa foi feita por mim na metade da década de oitenta.
Pensei, naquela altura, que uma versão para alguma música de Dylan poderia dar um novo flash no repertório do Hallai.
Para definir qual canção, fui procurar no “quintal da década de sessenta”,qual artista que poderia entrar em nosso repertório e cheguei no personagem complexo de Bob Dylan. Como sempre fui chegado em mitos e lendas e por ter escutado muito o álbum “Naschville Skiline” num velho “prato “ que eu tinha no Bairro da Glória , Bob Dylan foi o escolhido.
Para chegar ao Mr.Tamborine Man, percorri vários caminhos, entre Porto Alegre e São Paulo a procura de informações (não existia internet- década de /80), fiz várias traduções para entender,li muito sobre o poeta, escutei todos os discos lançados por Dylan na década de sessenta, visitei todos os sebos de São Paulo e Porto Alegre, em nossa cidade não encontrei quase nada, em Sampa muita coisa em livros, encontrei a maioria dos discos na praça Benedito Calixto, no bairro Pinheiros.
Fiz uma “radiografia” minuciosa nas canções de Dylan /60, e depois de muitos dias e noites, cheguei no MR. TAMBORINE MAN. Primeira coisa que fiz foi traduzir a música com meus parcos conhecimentos da língua inglesa,comprei um dicionário de expressões idiomáticas e também livros da década de sessenta para entender a “onda”, que eu na verdade tinha vivido na minha adolescência.
Tinha ouvido muito pelo rádio aquelas canções que mudaram a forma de verbalizar todas aquelas viagens “metafóricas” dos poetas e dos músicos. (-) Enfim, mãos a obra / A IDÉIA de Dylan na canção não foi violentada, pelo contrário , apenas o número de versos é que foi simplificado, mas assim mesmo coloquei mais versos que o grupo”The Byrd’s , banda que gravou a música nos anos “ “60”. Mr. Tamborine Man, na verdade era um simbolismo daqueles jovens que vendiam drogas (chocolate /cabeça de negro) em GREENWICH VILLAGE dentro de um pandeiro, pelas ruas do bairro. Quando verti, a idéia para o português, tive uma antevisão de toda problemática que estava para acontecer no Brasil, o Collor tinha ganho as eleições e a geração “camelô”, entrou de malas e bagagens no país. Ali, foi a bomba “C”, solta no solo brasileiro. “Senhor Camelô”, era o nosso “Mr. Tamborine Man”,porém com uma dramaticidade muito mais social do que aquela de jovens vendendo “drugs”,o que no começo vinha com toda aquela estética moderna amparada por músicas da moda nos EUA. Um mês antes do Hallai-Hallai entrar em estúdio a música estava pronta e mostrei para o pessoal do grupo.Uns ficaram assim ..surpresos e ... gostaram....quando mostrei para o nosso produtor,e contei sobre todo trabalho exaustivo da pesquisa e o que representava aquela canção no “Gran Monde”, Michael (3M), ficou entusiamado e emocionado, não sabia de todo aquele aspecto histórico da canção que ele gostava muito, e disse : Nós vamos vender 500 mil cópias na primeira rodagem...podem apostar..e se preparem ! O pessoal do grupo nunca soube disso, aquela música agilizou a entrada no estúdio do “Mosch” do projeto Hallai. Eu não poderia esperar mais, e o grupo ( Paulinho ,Robson & Jorge) que estavam hospedado no “Lord Hotel”, no bairro Santa Cecília (Padroeira dos Músicos) estavam precisando de trabalho. Levei 6 meses para aprontar a letra e colocá-la em (E) mi maior, O original é em (D), ré maior.Aquele novo tom deu uma “cara” Hallai a música, tirou aquele toque solo americano e revitalizou a canção que ficou feita para vocal Hallai. A liberação da editora que detinha os direitos da canção, foi demorada, eles custaram a remeter a gravadora o documento de autorização. Foi estudada cada palavra da adaptação.
Tudo isso acontecia nos bastidores. Eu e o Michael vivíamos toda esta longa espera , e os problemas estavam a nos rodear.
O restante desta história está no depoimento . É imperdível o que aconteceu. Aguarde !? (década de 80 /isto aconteceu)


“hey ! Mr. Tamborine Man/ play a song for me/
I’m not sleep and there is no palce I’m goig to/
Hei ! Mr.Tamborine Man/ play a song for me/
In the jingle jangle morning I’ll como following you/
(
(B.Dylan)




MR. TAMBORINE MAN
(Sr.Camelô)
by Necão



Hey, sr. Camelô

Toque uma canção pra mim/
Estou sem sono e não tenho para onde ir/
Hey, sr. Camelô
Toque uma canção pra mim/
Na manhã ruidosa eu irei contigo/


Embora saiba que o império/
Da noite se desfez em areia/
Me escapou por entre os dedos/
Me deixou aqui cégo/mas ainda sem dormir
O meu cansaço espanta-me/
Mas tenho as pernas firmes/
Só não tenho ninguém pra ver/
E a velha rua vazia/
Esta demasiada morta pora sonhar/


Hey, sr. Camelô / (refrão)


Leva-me em viagem/
No teu estonteante barco mágico/
Estou pronto a ir para qualquer lado/
Estou pronto a desaparecer/
Lança o teu encantamento/
Que eu prometo segui-lo/
Os meus pés estão pesados/
As minhas mãos vazias/
Os meus sentidos amarrados/
O meu tambor de palhaço esfarrapado/
Embora possa ouvir danças loucas ao sol/


Hey, sr. Camelô (refrão)


Pelas ruínas do tempo/
Bem além das folhas geladas/
Distante do alcance da mente/
Longe de uma tristeza louca/
Recortado pelo mar/
Cheio de areia circenses/
Camelô, das praias ventosas /
E, de todas as esquinas do mundo/
Coloque a venda de imediato/
Todos os sonhos da mente/
Assim eu esqueço o dia de hoje/
Até amanhã !


Hey, sr. Camelô (refrão)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

VILA PILAR*

VILA PILAR
(ROMANCE RUSSO)
- Final década /50 -

by / NecãoCast

...
Este verísmo pode estar do teu lado agora, em qualquer lugar , basta você olhar e escrever, 

            comigo, aconteceu assim ...

O ambiente da rua Gravataí já te levava a uma atmosfera psicológica profunda , uma estranha galeria de tipos humanos .

O grotesco , o trágico do cotidiano, depositados numa terra fértil com construções rígidas , mas que não se amoldavam gratuitamente a nenhuma fórmula .

Uma tempestade de neve eterna ,descia sobre a minha cabeça quando eu dobrava a esquina da “Gravataí” para entrar naquela rua da minha infância .

Alegorias, tapete mágico,cabelos inarredáveis...tudo isso e mais um pouco, quando eu encontrava a Laura, a Helena e a “Tia Perica”.

Era uma coisa genuinamente russa, parecia que eu estava em S.Petesburgo ou coisa que o valha.

Uma linguagem especial acessível , com uma melodia de nobreza ,  vinha sempre delas.

Logo depois do portão tinha um monte de lenha, e aquele perfume “Lemmer” solto no ar.

Aquilo tudo parecia ter sido fotografado da “Gazeta de Moscou”, a fábrica com aqueles tonéis de essências para a fabricação daqueles perfumes de “Ucrânias” e “Sibérias”.

Tinha também o Paulo, o Ândia e a Ivone; e uma figura impenetrável que era o “Tio Henrique” .

Ele parecia um antepassado, um homem da floresta selvática, orgulhava-se de sua nacionalidade, e gostava muito de um biscoito molhado no chá.

 Quando estava embriagado chorava, “que vida de cão”….dizia ao vento ...mas era uma “montanha”, jogava boliche como ninguém e dava uma palmada muito forte ,quando encontrava algum conhecido pela rua.

O “tio” Henrique , tinha vindo para este mundo para montar em touros , mas fabricava perfumes.

O final da década de cinquenta estava terminando na rua Gravataí e uma colorida realidade pictórica surgia junto com uma invencível tristeza.

A tia Pilar (Perica),era um fiel retrato da alma russa, mesmo tendo origens argentinas ,era de uma notoriedade especial dentro da família, a irmã mais velha, a conselheira, tinha paixão pelas viagens, sentia-se recompensada pela posição que ocupava ,
 e com os filhos compartilhava seus prazeres.

A tia Pilar era uma mulher grande e calma, não era modesta , orgulhava-se de seus filhos , principalmente da Helena e da Laura,com aqueles magníficos cabelos penteados, saias godês , blusas de banlon, ao som de “rock around the clock”

 que eu ouvia no radio Kliper , num espaço de tempo tão longo , que eu não entendo como coube dentro daquele rádio.

 A Laura era aquela coisa Rita Haywort misturado com Ava Gardner e a Helena que já era “lora” ,
 levava o estilo Gingers Rogers misturado com Marilyn Monroe com uma pitada de Brigit Bardot .Os olhos das duas eram semelhantes aos mistérios do espírito santo .

Nas festas de final de ano, a “Vila Pilar” parecia uma cauda de pavão, o céu sempre estava claro mesmo a noite;
meu coração batia com ímpeto, todos juntos, a família viva, era um conjunto elegante , com o título : MEU FILHO É MAIS BONITO QUE O TEU !

A “Vila Pilar”, mantinha na sua própria senha o mito das possibilidades infinitas , mas ao seu lado corría uma mística que apontava para um lugar que não teria um “happy end” feliz.

A única certeza que eu levei depois da “Vila”, foi que eu tinha sido criança, tinha pulado na grama sob as árvores sombrias , enquanto a mãe, me acompanhava.

Tudo que eu senti e vi, dentro daquele mundo de tempestades nunca saiu de minha cabeça,
era sempre uma revolução que estava em marcha, uma casa de aparência robusta e bem alimentada, mas tinha sempre uma expressão faminta, de uma fome voraz e desesperada de vida.

Hoje eu tenho certeza que nadei nas águas turvas do rio Volga, e não sabia de nada.

“ The answer, my friend / is blowin`in the wind /
The answer is blowin ìn the wind .
(Bob Dylan)
- The end -

terça-feira, 26 de maio de 2009

>DEPOIMENTO > ( 4 )






VIVENDO A VIDA DE LEE 2°CONCERTO*


                             -VIVENDOLOGÍA DE LEE-
Depoimento: Necão Cast*
Participam: Lucas*Nanda*Fanni*Marco
Entrevista gravada em maio de 2009*

                                                                             
                                                     Estréia do Hallai!!!!


CONCERTO / - II –
DATA : 9 DE NOVEMBRO DE 1975.
Local: Araújo Vianna
Porto Alegre.
Estréia do Hallai Hallai
Sid , Paulinho & Necão.

SID CAST*PAULINHO ZAM*NECÃO CAST

P/ Fanni – O concerto número dois, foi o da estréia do Hallai, antes do grupo entrar no palco, me fale um pouco da nossa cidade...como eram as coisas todas que rolavam por aí ?

R/ Necão – Pra vocês terem noção, o presidente do Brasil era o General Geisel ,e o prefeito de Porto Alegre era o Vilela; Me lembro que ele tinha inaugurado duas praças... (risos)... a praça Argentina e a Raul Pilla... morava na Salgado e gostava de apanhar sol nas duas praças...foi ótimo..., a energia que rolava na cidade pra mim , era aquela coisa do Hallai...,tudo direcionado a favor do grupo, pois as nossas músicas estavam a mil, rodando no Mr: Lee, ...claro que todas aquelas razões ideológicas do MDB e da ARENA , os únicos partidos que existiam, levavam toda aquela complexidade para as cabeças das pessoas,...,reivindicações nacionalistas, apoio a certos direitos ; Interesses pessoais , claro que a gente vivia tudo isso, aquele mundo instável em uma sociedade despreparada para se defender.... neste mundo inseguro... nós todos do grupo, nos refugiávamos, atrás das muralhas musicais do HALLAI .
...Aquela coisa de esquecer não existia.... eu pelo menos procurava ler a cidade a minha maneira,...me lembro que aqueles filmes históricos, estavam nas telas dos nossos cinemas...Woodstook, no Capitólio ali na descida da Borges,o Gime Shelter , no Cine ABC , na Venâncio ...até o Juventude Transviada , tava passando no Vogue, da Indepê , cinema de arte... as coisas custavam a chegar por aqui , não é como hoje , passou lá... passou aqui... me lembro também que o grupo “ Terço”, O “Liverpool”, e os “Mutantes “ estavam preparando um grande show para o “Gigantinho”..., o Paul Mcartney já estava com o grupo “Wings”... eu fiquei “p” com isso...me lembro ...achava uma traição para com os outros dos Beatles... nem todos , também, conseguiram entrar no Vivendo a Vida de Lee , e estavam vivos também na cidade...o Grupo Pentagrama, do Ivaldo Roque , Jerônimo Jardim e da Loma tocavam num bar famoso chamado “Vinhadalho”, o Cândido Norberto tinha uma coluna na “Zero Hora “ chamada “Sala de Redação”...a Lúcia Helena , também já estava no pedaço,(como se dizia) na noite de Porto Alegre... a Anna Mazzotti e o Tijolinho já faziam aquele “jazz” com o grupo “Desenvolvimento...o famoso café “Rian”, da Rua da Praia.... as boutiques da 24 de Outubro, e da Indepê.... parecido com aquele clima da ”Oscar Freire ”... não existiam shoppings....nem internet... e,muito menos telefone celular... as novidades estavam nas ruas, e você tinha que descobrir, no faro do perdigueiro pessoal, do seu nariz...já tinha também questionamentos sobre os parcos investimentos no cinema gaúcho... as mesmas discussões de muitas coisas, que ainda hoje se falam ! ...outros músicos já estavam também na batalha , o Bebeco Garcia, O Mutuca ,...eles não viveram a vida de Lee , o que foi uma grande perda para a história de Porto Alegre, pois eles tinham tudo a fazer naqueles concertos...,o Lutzenberguer já defendia as árvores de nossa cidade..., o “Lupi” , já não existia , somente suas músicas estavam a tocar nas noites do Porto. Estes são os primórdios de todo este caldo cultural (1975)... parece primitivo...mas esta era a atmosfera que nos cercava...,a gente lia “Uma Estranha Realidade” do Castaneda, e se sentia bem feliz... voltava para casa e encontrava a família, aquela segurança, todos vivos,e a música rodando na “super quente” ...’Good-Good Night / Cinzenta América//Do homem Ouro/ Dhinnero / Money!/..tum...dum ...dum...dummm.(no bordão).!
Tanta coisa ....a gente acreditava na virtude.../ 1975; a memória me leva apenas a esta superfície, tudo foi mais profundo,mais intenso .


Lucas- Necão, senti uma rota de colisão, entre este mundo que tu relatou com o mundo que nós vivemos hoje..(.a sociedade virtual)...a batalha pelo acesso a vida , e as oportunidades eram bem menores, muito mais sacrificantes, eu acho, que por isso tudo, o valor de um projeto artístico era bem maior,tudo era mais focado, mais único, hoje os artistas de um modo geral , não se fixam mais em determinada coisa, aquele som feito pelos amigos de infância é jóia rara, o som do bairro, aquela “bebida” compartilhada depois do ensaio, aquele “dá um abraço no teu pai “ , que revelava o convívio familiar , e o pé na estrada.. O som dos anos 60 e 70, levam na “mochila”, todas estas delicadezas das pernas e dos pés que na verdade construíram a passos as notas do rock ,blues,folk, e tudo o mais.

Necão/ - As coisas hoje estão mais evidentes, a realidade está muito mais presente, hoje é a fábula do fraco X forte.....e com a trilha que leva o nome ...-“ “ - "te orienta rapaz , não sonhes muito" .
Antes era assim...quando Neil Cassady encontrou Kerouac em Denver , disse. “ Seu filho da puta, finalmente você caiu na estrada”. (1960) ( hurra !...e palmas !)
( On the Road)
-
AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA-
Domingo/ 9 de novembro/1975

Nanda / - Fala aí Necão...chegou a hora da estréia do HALLAI ?

Necão/ - A ascensão até chegarmos neste grande dia foi aberto entre cinzas e areia movediça ...cinzas , porque nós, Sid / Paulinho & Necão estávamos no periodo da muda da fênix...saímos do Rio...fizemos as “Rodas de Som” do Arena, e agora , Vivendo a Vida de Lee.. (5.500 pessoas).. / areia movediça, o palco do “Araújo Vianna” estava nos esperando como um crocodilo, a qualquer momento ele te cortaria em pedaços ... nós 3 , num cérebro só , com violas Plugadas com fita isolante pelo Egon da Cotempo ; na história do “Araújo”, nunca soube de uma lotação de 5.500 pessoas , tinha gente na marquise do auditório... nossos violões apesar de serem lançamentos da “Del Vechio” eram naturalmente violões nacionais , comprados na “Mesbla” (Sid & Necão ) o violão do Paulinho era o famoso “velho xerife”, um gianninni histórico , mas também sem captação...violão importado naquele época , quem tinha era considerado o “cara”...me lembro que nós ensaiávamos toda semana no bairro da Glória (casa do pai) ... preparamos as músicas que a gente curtia e que estava rodando no mr: Lee...era um dia de sol em Porto Alegre...o Júlio, agitou durante 10 dias a mídia do concerto do “Araújo”... incendiou a cidade...- É aki xará que rola o som natural de Lee...som feito com rodagem máxima nos estúdios da Continental...dia 9 no “Araújo” o som de Lee...a gente escutava todo dia, colado no rádio...na mesma semana o Júlio levou todos os músicos na “Ordem”para regularizar e tirar as carteiras de músicos...todos foram em Canoas...e fizeram os exames ... o Júlio pensava sempre no outro lado da moeda, (dólar) a coisa não vai ficar só aqui no Rio Grande do Sul, dizia ele...Coast of Coast...pregava ele ...o Brasil vai tremer com a “Vida de Lee”... e a hora chegou...me lembro que o Sidão disse, que iria acender algumas velas, conselho de um guru...os bastidores do “Araújo estavam demais ...era músico pra tudo quanto é lado...afinando , ensaiando...dando os últimos retoques ...cada um no seu camarim, dividido com panos ...se me lembro bem...toda inteléquia de Porto Alegre estava presente, até o Glênio Reis, o grande Glênio...foi o primeiro cara que nos viu tocar nos anos “60”, junto com o Salin...os dois produziam o programa na T.V. Gaúcha do próprio Glênio...existia uma ligação entre todos ...a arte não é ilusão...”que venga el toro”...era cereja com torta de sorvete,(On the Road).
O Carlinhos Tatsch do “Bizarro”, com aquela expressão londrina , jovem com cara de frio....(risos) ...uma figura.../ o Inconsciente Coletivo...3 jovens nascidos das páginas de Shakespeare com um forte love history folk...um barato/...o Hermes Aquino...com aquela cara Frank Zappa/...o “Utopia” tinha todo um astral de “Mutantes...era o novo...violinos , violões... aquela coisa de Porto Alegre...moderna...tipo assim Museu do Margs...com todas as telas nos salões
expostas a plebe ignara/...o Kalique e o Garaí já estavam juntos naquela época...com o grupo “Mercado Livre”... era um som rural técnico/...o Gilberto Travi ...e o mano dele ...gente especial...o vocal das meninas era muito bom/...
...o Zacarias era uma coisa meio “Santana”/...o Fernando Ribeiro, o Toneco e o Arnaldo ...faziam aquela “cara” de MPB... tipo ...-“Um país de escravos é um país sem povo”...eles seguravam esta parte com grande afinco/...o Eduardo Pires e seu mano Ewerton Pires...faziam um som muito legal com o grupo “Metamorfose”..altos violões/...o Mantra do Zé Flávio... era demais... um som progressivo...tinha aquela cultura individual..”.mistura de centro do país” com ecos londrinos americanos/...o Status 4...que depois foi 4+ 4 , vocal MPB com forte influência “daquele jeito Sidney Poitier”, misturado com o Harry Belafonte,/o “Flor de Cactus” parecia aquelas bandas de Berlin, com um super ego todo de Novo Hamburgo, achei assim...tipo “Almoço Nu... do Willian Burroughs/ ......o “Araújo Vianna” não tinha teto, era o maior barato(beleza), aquela concha acústica branca, parecia uma “White Mountain”, de dia o sol , de noite a lua e as estrelas, os astros participavam também , dando toda aquela beleza natural de Lee (risos)...tem um aspecto aí , que eu não posso deixar de falar , e que isto fique registrado com louvor ...foi o comando , a liderança, e o astral do Júlio, (Mr.Lee)...eu acho que foi o grande ápice da carreira do Júlio...ele acreditava muito mais que nós naquele movimento, e naquele dia ele representou como nunca , aquele “Velho Cowboy “ defensor das mocinhas incautas e virgens da cidade de “Santa Fé”...o movimento tinha aquela coisa de “Born to be Wild”,(” Easy Raider “)apesar, de naquele dia , ter muito som, que não tinha nada a ver com o mundo de Lee...mas aquilo era apenas uma amostragem , depois eu entendi...o Júlio representava também aquela “terra sem fim”, uma linha reta sem limites...passando por florestas ,pântanos,desertos, montanhas,em busca da terra do encantamento/...

Já era noite , quando o Mr. Lee, chamou o Hallai Hallai ao grande palco do “Araújo”, .. com aquela voz de FM,”- -PESSOAL SACA ESTA NOVA BANDA DA GRANDE PORTO ALEGRE, É O HALLAI HALLAI, MUITA VIOLA E VOCAL .


                                                            Sidão & Paulinho Velho Tchêrife


A sorte estava lançada, e nós pisamos pela primeira vez as pedras do palco do “Araújo”....3 caras , 3 violões...3 vozes ...solo e contra/solo base....começamos com uma música com acordes “woodstookinianos”, novinhos em folha.... . esta canção tinha 10 minutos...olha só a coragem ...naquele momento o “Araújo” estava completamente lotado...a introdução era” pau puro “ (risos), rang...tang...rang..
tang...rang... eu entrava/ ...BATA DE NOVO JOE LOUIS / NOVAMENTE BRENDA / FALE SOL , LUTHER KING/ MARYLIN, SORRIA.../NO AZUL DO HAWAI.../ LENNON AGAIN.../POR FAVOR LIVERPOOL / REI PELÉ FAÇA O GOOOL/ REI PELÉ FAÇA O GOOOOOOL !/ (puta vocal)
...obs. entrava vocal a partir de”Lennon again” /3 vozes...depois Cantamos “AMÉRICA”, que estava rodando no programa , TRIBUTO AOS BEATLES, que também rodava na Contí.
VENTO MINUANO” ...música que mostrava um outro lado da cidade, com citações em linguajar/ street & campo...fizemos ,também SOM ,PROMESSA , HALLAI...e a música GUAIBA...uma canção com acordes; tipo Carol King;... que mostrava o valor da água do nosso rio...tudo saiu muito bem...sem contra baixo, sem teclado e sem batera... sangue puro das estradas secundárias da grande Porto Alegre...só violão e vocal...pra/ 5.500 pessoas... inesquecível, quando tocamos a música “AMÉRICA”, ela estava rodando , a mil na “Conti”e, o público ouviu em silêncio total...e uma grande ovação no final comprovou, que o desafio de apenas 3 violões e vocal era o caminho do Hallai...”Se você piscar os olhos quando passar por esta estrada, você não verá Winowa “.
(Route 66)

Marco / - Na opinião do Necão, quem realmente estava no espírito do movimento, e que a história , depois registrou, como um “Woodstook”de energia em plena Porto Alegre ...foram ... Júlio Furst (Mr.Lee), Inconsciente Coletivo, Hermes Aquino, Bizarro, Fernando Ribeiro, Hallai Hallai, Mantra, Utopia, Flor de Cactus , Almondegas.
Isto representou o novo, naquela noite do( 2º ) Concerto do “Vivendo a Vida de Lee). *** Ali naquele palco do “Araújo Vianna, foi tatuado na pedra ...! “TU ÉS FOLK , E SOBRE ESTE PALCO , EDIFICAREI ESTE MOVIMENTO”.

P/ Lucas – Necão, aproveitando esta frase ... se tu fosses fazer uma análise, tipo assim...café filosófico....como seria este dia do 2º Concerto ?

R/ Necão – Deixa eu pensar um pouco... ( - ) eu levaria para o lado das lendas,
“As mil e uma noites”, com toda aquelas fantasias...o “Araújo Vianna “ seria a grande lâmpada, o Mr. Lee , (Júlio), o gênio da lâmpada , nós músicos os “esfregadores” da lâmpada , e a Princesa Badrulbudur nosso objetivo final !


Tudo isto aconteceu no dia 9 de novembro de 1975, num domingo !

(...continua na próxima postagem...)


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terça-feira, 12 de maio de 2009

DEPOIMENTO * ( 3 )





                                   Mensagem aos filhos da terra : *Hallai*Hallai*
                             Entrevistado* Necão Castilhos (06/05/2009)
                             Participam: Fanni (Steffani Dias-Layot Produções)
                                              Nanda ( Ananda Souza Morais-Publicidade)
                                              Lucas (Alberto Lucas Ribeiro-Jornalista)
                                              Marco ( Marco Silveira Silva-UFRGS)


                                     V I V E N D O L O G Í A
                                              DE L E E* 



P/ Lucas- Já diziam os bruxos que a perfeição se encontra no caminho do meio, no equilíbrio e na harmonia entre os opostos; Os chineses chamam isso de “TAO”,o princípio que regula Yin e yang, as duas grandes forças que movem o mundo, isto quer dizer “meu véio”, onde uma termina a outra começa, fazendo girar a roda da vida...por isso gostaria que vocês transcrevessem algumas opiniões que eu li, de gente importante na época de Lee, pois me parece que esta é a oportunidade de colocar-mos na roda, certos questionamentos para que esta falsa, falta de drama dos artistas gaúchos, é o que leva ao caos todo e qualquer movimento em busca de um mercado que não seja esta coisa antro(pop)fágica, que sempre cortou todos os sonhos.



Comentários sobre o movimento
                                                             
Agosto /1975...falou Ney Gastal (jornalista)...-Estamos nos momentos iniciais de uma explosão musical que pode ser importante para a música popular brasileira como foi a dos baianos na épocas do tropicalismo, o que não significa necessariamente que vá ser. É preciso mais, é preciso consciência do que fazer e como fazê-lo...A explosão gaúcha pode ser nacional. Resta agora saber quantos por aí terão capacidade de superar as limitações que lhes foram impostas por anos de esvaziamento cultural.

Agosto/ 1975...falou Juarez Fonseca (jornalista)...Preste atenção: o rock profissional está chegando em Porto Alegre.

Novembro/ 1975...Zero Hora ...A explosão foi tão grande que as fronteiras do Rio Grande do Sul, desta vez, não conseguiram contê-la. Os jornais do Rio e São Paulo, mais as revistas especializadas em música estão impressionados Nelson Motta ( O Globo) e Tárik de Souza (Jornal da Tarde), principalmente o primeiro, tem mencionado constantemente nosso movimento musical. A revista Pop também.

Maio/ 1976...falou Maria Wagner (jornalista)...O que acontece é que em Porto Alegre já existem – felizmente alguns talentos reconhecidos e sempre bem recebidos pelo público. Em outras palavras, um mercado para a música feita por gaúchos esta se formando no próprio Rio Grande do Sul. Maria Wagner destaca ainda o Inconsciente Coletivo e Fernando Ribeiro que , segundo ela, extrapola na apreciação crítica do que o rodeia.

Setembro/ 1976...Zero Hora....Tôdas as apresentações pelo interior também tiveram lotação esgotada.A exceção foi Passo Fundo.

Setembro /1976...Zé Flávio (músico) ...O movimento não que tenha sido feito em função da rádio. Ia ser feito de qualquer maneira, já estava sendo feito. Mas a rádio foi o grande mote.

Outubro/ 1976...Zero Hora....Pela primeira vez , músicos gaúchos fazem parte de trilhas sonoras de novelas da Globo, o que garante grande projeção.

Outubro/ 1976... Músicos de Curitiba...Vivendo a vida de Lee, é que poderia ser mudado, porque a coisa já cresceu mais do que a simples marca do patrocinador.

Dezembro/ 1976... Juarez Fonseca (jornalista)... O Teatro Leopoldina estava lotado nos dois dias, uma prova de que a locomotiva tem carvão (ou óleo) suficiente para prosseguir, e até para tentar novos caminhos. Vamos ver o que Júlio e Bayar pretendem fazer agora, porque eles também devem estar pensando nisso tudo.

Dezembro/ 1976...Américo Bender (diretor /marketing da Lee ) ...O diretor da Continental Fernando Westphalen, queria muito dinheiro e não arredou pé. O preço que o Judeu queria equivalia a toda verba disponível por Bender para divulgação.
Acabou o negócio.

Fernando Westphalen (Judeu /diretor da Continental) " Com o tempo começamos a ver que não íamos chegar a lugar nenhum.Foi um sonho de uma noite de verão. Mas não me arrependo de nada".

Obs: opiniões dadas no livro do Lucio Haeser.

Nanda – Isto veio em boa hora e de uma maneira vem colaborar para elucidar esta “ilusão” do estado benfeitor,no caso a Continental em relação aos músicos de Porto Alegre. Tudo sempre foi assim , quando um maior número de pessoas começam a tomar contato com a obra (músicos ) entra a anto(pop)fagia)e então começa a diluição.Esta de herói das comunicações não existe .

Fanni – Enquanto Porto alegre ficar pensando que o mercado artístico da cidade é o “País do amanhã”, mal sabem eles os empresários , músicos,gente do meio, produtoras, Tvs, rádios, Teatros etc... que amanhã é feriado.

Marco – E tem também o seguinte : - A tal revolução tecnológica, a evolução do pensamento,as ocorrências que mudam a vida da gente, novos teatros , novas salas, Porto Alegre sempre assentua tudo isto, mas sempre me parece que os músicos de Porto Alegre estão sempre tentando vender o charque da revolução farroupilha para os ingleses (risos...) muitos (risos)...quem sabe agente começa a comer este charque aqui em Porto Alegre e deixar de sonhar com esta coisa, de que lá é melhor que aqui , para sentir o gosto de tudo isso ....agora tem o seguinte para conseguir o Teatro São Pedro só com “padrinho”, existe um projeto de música gaúcha que está a 3 anos na fila e não consegue entrar.,( produtora gaúcha) Para conseguir o Teatro da UFRGS, só pagando 4.900,00 reais + luz , som e divulgação, por apenas uma noite , é mole?
Toda essa falta de crédito foi plantada por todos , e começou com previsões erradas.Ninguém pensou naquela época , nas possibilidades imensas de um mercado que estava nascendo em nossa cidade. As grandes empresas , as grandes marcas,não mantem posição apenas conservando suas virtudes. Uma luz pelo menos hoje , começa a brilhar na cidade , eu acho assim , que é a Busina do Gazômetro .

Necão – Depois” deste papo” de vocês, não preciso mais falar nada,viva esta nova geração...e tem mais ...a teoria do “caos”, sempre foi o modo de pensar de todos nós, (antropofagia gaúcha) e quando surgiu a possibilidade de colocar-mos uma oposição geométrica em tudo isto, o Bender da Lee recebe um nãoooooooooooo, do tamanho do “Gran Canion”,... aqueles sonhos que o Júlio (Mr. Lee)em altos papos ,bradava aos céus na General Câmara , e que eu e Paulinho ficávamos ouvindo e viajando na beleza ao som dos músicos de Porto Alegre.....
”Há meu Macho Picho / Ninguém segura este meu delírio/ Há olhos vermelhos/Cuca cansada/ De mil colírios ...Costa a Costa ( Coustof Coust ) o programa do Mr. Lee seria assim para todo o Brasil... o Júlio falava assim ,com grande convicção...
As pedras da “General “ se transformavam num quintal “QUIXOTESCO”,... eu e Paulinho saíamos dali com a luz do sol, em plena meia noite, caminhando pela Rua da Praia, em busca de algo para comer ,... a noite acabava, com um belo cachorro quente na Praça Rui Barbosa com duas lingüiças com trema (risos... muito risos...)
A vida é bela.......!!!!!!! Ninguém é de ferro .

pausa (-) para o lanche.......

Marco/ - Pessoal , acontece assim: quando vou verter para o blog, esta conversa toda que esta sendo gravada,eu coloco em bloco ,perguntas e respostas...,ainda mais agora que vocês entraram no espírito da coisa , e estão se conhecendo muito melhor, os apartes ficam inseridos no seguimento de ambas( ...perguntas e respostas.....) tem que ser assim, porque o objetivo é não só ficar no “blog”, mas transformar tudo isto, brevemente , em livro, e o foco de todo este” papo”,não pode se perder , ao ponto de perder-mos aquela coisa Hallai, ou aquela estrada /Vou para Matcho Picho / Ouvir as flautas de muito além/ (pra seguir no clima do Hermes Aquino)

Fanni/ - Marco, depois que terminar este assunto, a coisa toda não pode ficar assim...vamos continuar a nos reunir uma vez por mês, para continuar...tipo assim, a crítica da crítica...tem muita coisa na roda que o” Blog do Necão” poderia levantar e com isso descobrir-mos outras pessoas ,outros aspectos do nosso cotidiano histórico, ou não !?!?

(aplausos) idéia aprovada por todos.

Necão /- Agora tem uma coisa , pelo menos por enquanto,eu estou focado na música , todos os meus questionamentos me levam a” dona música”, e o” mercado de vidro” de Porto Alegre , sei que a entrevista está avançando para o Teatro, Artes Plásticas , Dança, literatura...mas , reafirmo que pela música nós podemos avançar e verbalizar todas estas questões que falam de um modo geral da arte que nos cerca.
Hu hu hu hu hu hu hu (estalos de dedos e sussurros).
´
A roda de conversa foi longe, já não tinha mais pão,o café estava no fim, o salamito italiano” acabou chorare”.
Obs: O relógio estava marcando 3:00 horas da manhã. E, depois do lanche deu uma canseira em todo mundo.




Continuação...dois dias depois...



                                                                                                                                                        
                                                                                                                              

*Cine Theatro Presidente, (13*agosto*1975) onde se realizou o primeiro Concerto*
                                                                               
                                                                                                                                                                                      
                                                                                                                                            
P/ Fanni – O primeiro concerto da lee , onde vocês estavam?
R/ Necão – Realmente não sei , eu particularmente estava dentro do Teatro Presidente...(risos), engraçado que no início eu não me lembro de estar( let be) escutando a Continental, eu vivia de uma certa forma naquele bairro, freqüentava muito um bar chamado “O Barquinho” ali na São Pedro me lembro que quase todas as noites eu ficava ali curtindo os musicos que tocavam naquele bar,passava também no famoso “Quartinho” onde Telmo,Ricardo e Sales começaram a fazer um som“Minas Gerais”, muito bom e vocalizado.

P/ Lucas – Fale um pouco daquela noite histórica , qual foi o clima no Cine Presidente ?

R/ Necão
Eu não sei como, mas já estava com um ingresso dentro da minha jaqueta lee, naturalmente (risos)...depois que entrei com um grande esforço naquele empurra,empurra, sentei bem no meio da platéia...pra resumir... o que mais me chamou a atenção foi a apresentação do Hermes Aquino cantando “Macho Picho”, aquela coisa estóica do Hermes ,dirigindo a todos nós, para aquela viagem de sonhos,nos dando a visão exata da reconquista da utopia,fazendo da própria vida sua obra prima ,naqueles versos geniais, imersos no visionário .
/há meu Macho Picho ninguém/ segura este meu delírio/ há olhos vermelhos/ cuca cansada de mil colírios/...

...esta outra parte é emocionante...
/volto pra casa/ esquento café no fogão/ tomo café brasileiro/ e vejo futebol na televisão/ ...( todos cantaram juntos ).... a realidade de todos neste verso do Hermes; aquele , On the Road”, quando estamos cansados da rua , voltamos pra casa , abrimos o forninho do fogão, e lá esta aquela “paparia” que só alguém que gosta realmente de nós, deixa ali “morninho”, pronto para comer, saciando aquela fome da madrugada...(salve, negra Iara !...salve, grande Eliana...)


P/ Nanda ...fale mais...

Necão - Senti agora por incrível que possa parecer, um pouquinho daquela emoção de estar lá naqueme momento em que tudo estava acontecendo, outra coisa ..., sempre que "pintava" som de músicos gaúchos em Porto Alegre, eu sempre procurava uma forma de ir , de não faltar, isto acontecia com todos , era uma onda por toda cidade. E foi assim ,  quando me dei conta estava em frente do Cine Presidente, parecia uma convenção de um partido politico americano, carrinhos de algodão doce , balões, carrinhos de pipoca, gente suplicando por ingresso, celebração com o som local.

R/ Necão - Aquele momento foi o grande “loop” de Porto Alegre, me lembro também do Chaminé , do Laurinho , tinha outro na guitarra, que se não me engano, foi o único concerto em que ele tocou...aquela cena do Hermes pra mim foi o novo, a grande sacada, os subterrâneos expostos no palco, a pá ,em que me reviro...(palmas..kláp..kláp..)

P/ Fanni – Necão , bota inspiração nisso...sabe , que eu nunca tive esta consciência sobre qualquer música...a força de uma canção, agora começo a entender aquela energia que tu falaste no começo da entrevista... ,a energia dos músicos que entraram no elevador da Continental em busca daquele velho sonho de estrada, que na verdade é uma visão romântica de si mesma , quer dizer valor em si.

P/Lucas/ - Este olhar sobre a música de Porto Alegre é demais ,...isso tudo , vem resgatar a emoção primeira, os primeiros passos de um projeto, movido pela cidade, impulsionado pela vibração, em alta escala, dos músicos de Porto Alegre....porque acontece assim...quando você esta em frente de um quadro falso ,você olha assim, bem feito,mas falta a pulsação do artista , a emoção primeira ,o sulco das pinceladas que quando identificamos nos provoca um arrepio. Esta idéia foi escrita pelo Pompeu de Toledo , que praticamente eu decorei depois de uma aula na faculdade, ...então , estar no local onde tudo está acontecendo é privilégio ,e saber interpretar, aí sim...a coisa vira um documento histórico...eu estive lá....eu vi....eu escutei ...eu fui testemunha... imagine quem esteve em Woodstook...e assim por diante,...a história dos músicos de Porto Alegre, foi sempre vista como uma coisa assim menor,e todo o artista menor tem toda trágica infelicidade e a tristeza dos grandes artistas internacionais e ainda por cima não é grande.

Necão/ - Tudo isso mostra que o artista não exprimi o ritmo da nossa cidade , quer dizer este mundo visível,fixo, que sempre está mostrando o alerta do sistema,faça isso, faça aquilo...é aquela história , se todo mundo do planeta Terra, ficasse em silêncio por alguns segundos, haveria uma reorganização instantânea aparentemente mágica , talvez até uma mudança nas prioridades do sistema. Aquilo que sempre esteve “no fundo da mente”ou na “ ponta da língua “, não estaria mais lá , ou viria à tona com clareza incomum... isto na minha concepção aconteceu naquela noite no Cine Presidente e nos concertos da Lee, em Porto Alegre e Curitiba..., pra melhor entender,nós sempre estamos pensando , até por pressão da mídia de que, devemos pensar em sair de Porto Alegre, porque aqui não tem mercado para desenvolver uma carreira nacional, tudo é difícil..., e a realidade e o ritmo da cidade, nos mostra que é isso mesmo, os artistas estão num ritmo, e a cidade esta noutro , as coisas começam e param, é igual aquela música do Hartlieb “Voltas”, estamos sempre dando voltas, formando com isso , uma rota de colisão.
Aquela noite do primeiro concerto, fez vir a tona,com clareza incomum toda esta divisão, pois as coisas que estavam represadas vieram a tona e foram colocadas da “ponta da língua” para o público que estava presente no Presidente..., o ritmo era outro... a cidade teve que entrar no balanço para não “dançar”. Até jornalistas ficaram de fora, chegaram atrasados , o ritmo deles era o ritmo de Porto Alegre, por isso não viram nada, e também não fotografaram .É complicado pra entender toda esta digressão , somente com alguns anos de análise para tirar da mídia de Porto Alegre , esta coisa que tu falaste do músico gaúcho ter as mesmas vibrações, de qualquer músico do mundo, mas a de carregar o rótulo de ser menor, e que para ser grande tem que sair de Porto Alegre.
O sofrimento realmente é sempre maior, nós pensamos que somos John Lennon e continuamos na garagem com todas as implicações de um grande astro, porém não somos grande , somos pequenos. Orra! Que karma !

Marco / - A história da Revolução Farroupilha nós carregamos no lombo, inconscientemente...,ela nasce...cresce... e declina ...sempre acontece isso com os músicos,com raríssimas exeções.

Fanni/ - Entendi como nunca, o primeiro concerto no Presidente  e outras coisas que foram faladas no início deste depoimento, tu começa a ligar as coisas e entende que a história seja qual for, não é estática , mas dinâmica, ela sempre está em aberto.

Marco/ - Por isso eu coloquei este título : Vivendología
De Lee. (aplausos...aplausos...)

Obs: Macho Picho/ do Hermes Aquino / na opinião do Necão foi a música mais representativa de todo movimento musical daquela época,...tanto na melodia , como na letra, Hermes foi de uma inspiração rara, transformou a cidade , numa usina de sonhos,tirou aquela coisa “day tripper” (dia de tropeçar), e colocou ritmo na aldeia.


Macho Picho
Hermes Aquino
/Faço a mala depressa / uma promessa / não vou quebrar /
/ Sigo pela avenida/ Aeroporto , vou viajar /
/Atravessando os Andes/ De mil , detalhes / Me sinto bem/
/Vou para Macho Picho/ouvir as flautas de muito além/

/Uma desilusão no meu coração/ Se fez de repente/
/No meio da montanha/ Um hotel enorme , cheio de gente/
/Fotos, chicletes, coca, uma massaroca /pra lá & pra cá /
/Nem um Deus / Uma prece/
/Era o Progresso / Chegando ládo lá/

/Há meu Macho Picho / Ninguém segura /
/Este meu delírio/ Há olhos vermelhos/
Cuca , Cansada / De mil colírios/

( ...aplausos...aplausos...)

/ Volto pra casa/ Esquento , café no fogão/
/Tomo café brasileiro/ E vejo futebol na televisão/

/....bis...bis...bis....!!!!!! Com louvor !

                                     
... Continua na próxima postagem.../obrigado !


Necão/ - Alô...Marco....tudo bem...,faz o seguinte só > faz a postagem até o primeiro concerto, depois dá uma pausa... pelo seguinte:A partir daí, a coisa toda começou a ser admitida por toda mídia, ...jornais ,rádio,televisão,público e, o programa do Júlio começou a detonar mais música local, isto foi a grande virada, os músicos começaram a olhar um pro outro e a se respeitarem...e o hallai fez sua estréia.

Marco/ - Tô, com vontade de terminar com a letra do “Macho Picho” do Hermes , devido a todo aquele “papo”, que ficou maravilha , eu estava transcrevendo do gravador para o blog e foi demais...pelo seguinte...se tu escutar colocando todo aquele pensamento em Porto Alegre, também é certo ...veja só..../ Vou para Porto Alegre / ouvir as flautas / de muito além/ ...os músicos , dentro daquela idéia de sempre procurar sair daqui, por íncrível que possa parecer, vão e voltam, mas , só conseguem ouvir as flautas quando estão de volta ,pra saírem novamente do cesto, em busca do horizonte perdido...blz !

Necão/ - Demais....abração ...tchau !

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     ...continua ...