segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Depoimento ( 5 )

 hallai*hallai
VIVENDOLOGÍA DE LEE                        
Entrevistado: Necão Castilhos
Participam : Steffani Dias (fanni)
Lucas Ribeiro
Ananda Souza Morais (nanda)
Marco Silveira
Concerto n°3
Data 30*de abril* 1° de maio*1976
Local *Teatro Leopoldina * Porto Alegre*
                                                   
Sérgio*Robson*Paulinho*Necão

P/ Lucas – Como foi o dia seguinte (day after) do concerto do “Araújo”?
R/ Necão – Foi o seguinte assim...todo mundo que a gente encontrava na Rádio, nos saudava dizendo em” alto e bom som , HALLAI HALLAI” !
Era uma segunda feira e todo mundo estava na “Contí”, o Júlio estava mais falante do que nunca, mil planos , duas mil emoções , e o programa com a famosa vinheta da Lee em rodagem máxima ...Living The live of Lee... aquela vinheta cortava os céus da noite de Porto Alegre.

P/ Lucas – Nada pertence a ninguém mesmo, veja só, aquilo era no momento o verdadeiro, o novo ,o sorvete da hora ,o futuro já estava acontecendo, a vinheta era o hino dos músicos?

R/ Necão – Não tenho dúvida, a dualidade não tinha vez naquela segunda feira na “Continental”... era um lance inglês...ou um lance americano ...não sei ...mas a gente cantava em português ...um barato!

P/ Nanda – E o grupo como administrou tudo isso?

R/ Necão – No maior entusiasamo, o Sidão e o Paulinho estavam em festa ... apesar de todo o desgaste de muitos ensaios (todos dias)... tínhamos vencido aquelas barreiras todas e o grupo ficou mais forte. Guardei todos os recortes de jornais e segui a vida de Lee. (risos)

P/ Fanni – O terceiro Concerto, quanto tempo depois aconteceu , e o que vocês ficaram fazendo neste espaço?

R/ Necão – Custou muito a acontecer o” 3º Vivendo”.
Este espaço longo,(5 meses), dava uma certa aflição a todos, até os ensaios deixavam de acontecer, dava uma ressaca... e cada um vivia a vida de Lee a sua maneira, eu, Paulinho, íamos todas as noites na Continental, na hora do programa do Mr. Lee...depois ficávamos batendo papo com o Júlio, na subida da General...era cowboy pra cá...cowboy pra lá... cavalgávamos por todas as pradarías do velho oeste em busca da mocinha, sonhos e mais sonhos derramados na General Câmara... mas aí aconteceu a primeira ruptura no Hallai, faltando 2 meses para o concerto nº 3 , o Sidão, num belo dia, me disse, que não iría mais continuar no grupo. .Motivos particulares, viagens , certas incompatibilidades/ ... quer dizer, toda aquela estética que já vinha formada do Rio de Janeiro + Rodas de Som + Vivendo a Vida de Lee...estava para terminar, como de fato terminou.

P/ Lucas – Necão, que situação para um grupo vocal se realinhar de novo ?

Necão – Mas não era só isso, todo sistema do Hallai tinha sido montado para 3 violões e três vozes, mas o mais importante era o valor intrínsico, eu e o Sid, irmãos...o Paulinho, amigo da pré-adolescência... é difícil você formar alguma coisa nestes moldes...a mesma cidade ...o mesmo colégio...toda aquela visão estética que estava ao teu redor nos anos 60 e 70, e que aflorava em todos nós...tudo aquilo era grandioso,... de uma expressividade verdadeira.

P/ Lucas – É a história dos” Paralamas”, amigos de infância que sonhavam em fazer uma banda e continuam até hoje ...isto é raro ....eu entendo... as Bandas dos anos sessenta e setenta levavam isso até as últimas consequências, até pelas dificuldades que todas tinham em formar uma banda...era uma coisa mais ou menos assim...um pedaço de madeira tratado artisticamente transforma-se numa obra de arte; tratado a machado e rusticamente, torna-se uma racha de lenha.... , para tudo isso , só com amigos da mesma zona, dos mesmos papos, da mesma cidade, toda e qualquer dúvida , todos estavam próximos, no máximo era atravessar a rua e se encontrar.
Falando em” Paralamas” , tem uma música do Chuck Berry que diz o seguinte : -“ O cadillac vai correndo a 150 por hora / Paralama colado em paralama/ Lado a lado/ Mabellene por que você não é sincera? / ...é o caso necão...vocês tiveram que reduzir a velocidade?

R/ Necão – Me lembro que era um sábado, fui na casa do Paulinho e comuniquei a ele das novidades, concerto no “Teatro Leopoldina”, e que o Sidão não estava mais na banda... nós ficamos em silêncio, coisa rara entre nós (até hoje)...foi bem assim, peguei o violão e falei:- A saída é uma nova música , Paulinho pegou o” velho xerife”(violão), e juntos fizemos a música “cowboy”... esta canção trouxe com ela uma vibração que levava tudo a uma unidade de equilíbrio ...( -) engraçado , é que em situações que se repetiram depois , uma nova canção colocava tudo em seus devidos lugares... a música sempre nos salvou em situações de conflitos que foram muitos, no decorrer das estradas do Hallai.

P/ Fanni- Necão, como foi feita a segunda formação do Hallai... onde vocês encontraram esta terceira pessoa para continuar o Hallai , visto a deficiência de pessoas para agrupar num vocal ?

R/ Necão – No início foi complicado, me lembro que o Paulo chamou o Lauro , que já tinha tocado com ele, mas a coisa não rolou, não ficou Hallai, as vozes não afinaram, timbres diferentes, outra cabeça, enfim ...continuamos a ensaiar sem a terceira pessôa... depois o Paulinho me disse que conhecia um músico, que também já tinha tocado com ele...um rolo ... até que encontramos o Robson , que escutava a Continental, Mr. Lee, e gostava muito do Hallai Hallai...foi perfeito... o Mr. Robson era a pessoa que tinha nascido para ser um Hallai... ensaiamos , passamos todas as músicas, inclusive o “ Cowboy “ que tínhamos feito naquele momento dramático... e, que gravamos em seguida no estúdio da Continental , com o “missiê Anele. A coisa toda ficou pronta... e depois de algumas digressões... fizemos apresentação no Music Puc... em que o Julio foi o intermediário e nos colocou como novidade do” Mr. Lee In Concert “, que por sinal foi uma grande apresentação , onde , pela primeira vez tocamos a canção , que tinha o nome de “Pedro e Sara”,... a banda estava pronta para o terceiro “Vivendo a Vida de Lee” , no magnífico ( como dizia o Júlio ) Teatro Leoplodina.

P/ Marco – Mas foram( 4 )que se apresentaram no “Leopoldina “ ?

R/ Necão - Exatamente, o Sérgio , primo do Robson entrou na banda...Paulinho e Robson , achavam que faltava um baixo no Hallai... eu como purista do folk,
achava que não... mas diante de tanta argumentação... dei um sorriso de cerâmica... e disse :- Que venga el toro! ... e assim o Sérgio entrou na banda... foi legal... o Sérgio tocava violão e começou no Hallai, a aprender tocar baixo... o Paulinho e o Robson deram as aulas, e como o Sérgio tinha mão de baixista, rolou um belo baixo !

P/ Lucas – Mas... Necão, mudou tudo?

R/ Necão – Na verdade houve de minha parte uma ambiguidade...para explicar isto...vocês lembram quando os Beatles lançaram a música “Revolution”, pois bem , no Lp`, eles cantavam “ You can count me in” (/ Conte comigo para fazer a revolução/)...na versão do compacto, eles cantaram “ You can count me out “ ( / Não conte comigo / )... O Hallai do “Araújo”, quem viu sabe do que eu estou falando...as raízes....tipo “Pink floyd “ com Sid Barry... ou o “Gênesis “com o Peter Gabriel... não existia mais... não estou falando em qualidade... mas em matéria de estética e do lance conceitual, o Hallai perdeu muito... mas enfim já estávamos por uma beirada, e o 3º Concerto da Lee , já estava nos cartazes da rua.

P/ Fanni – Necão , vamos lá ...é o Hallai Hallai no palco do” Leopoldina” ?

R/ Necão – O concerto do “Mr. Lee” , no Teatro Leopoldina foi um acontecimento. Perguntavam, que tipo de evento é esse capaz de agitar toda cidade de uma vez só?
A contracultura, um novo Sgt. Peppers ,a Tropicália Gaúcha,um novo ritmo,ou um encontro de namoradinhos? Que nada véios, era “Mr. Lee in Concert”... a Terra do Sem Fim !!!!!!O Júlio dividiu o concerto em dois dias . O Hallai ficou no dia 1º de maio sempre predestinado dia do Trabalho.Agito na cidade,sindicatos...blá...bla´...blá...blá... E o Hallai , com 4 vozes,violões e baixo. ( A la pucha tchê) (risos)... ...1976...sábado....Teatro Leopoldina...
1ª de maio... Esta noite foi do BIZARRO, HALLAI, HERMES AQUINO, MANTRA, STATUS 4... fomos o penúltimo a ser chamado pelo Júlio (Mr. Lee), quem encerrou foi o Hermes Aquino. Preparamos as canções que estavam rodando na Continental, e incrementamos com novas canções...fiz uma canção, para este evento, que tinha o nome de” Águias”, outra canção “Natural” que falava de um lago virgem chamado Hallai – Hallai, o Paulinho fez uma canção instrumental chamada “ Chuvas”, um concerto para 3 violões...demais.!!!! O público em silêncio total...no final ...bis...aplausos... encerramos com “Cowboy“... em que o ”bem”, era representado pelo “copo de leite”, e o” mal” pelo” whisky”... o Apache e o Velho Xerife, em igualdade de condições...sem discriminação... tocamos América, Falsos Deuses, Vento Minuano, o Tempo Passa, O Sul ,Pedro e Sara...uma festa de vocal / viola e baixo ... foi demais...naquela noite a marca da civilização Hallai, ficou marcada, no palco mágico e histórico do inesquecível “Teatro Leopoldina”...




P/ Nanda – Báh...tchê...como terminou esta noite ?

R/ Necão – Faz tempo, se eu não me engano terminou com todos os músicos num bar da “Getúlio”, num alto astral...altas pizzas e outros breguetes... o Júlio estava inteiro no movimento da vida de Lee... hei! Hei!... só quero dizer o seguinte: a música “cowboy” ficou estigmatizada dentro do movimento...feita em Porto Alegre...... a mesma coisa quando os “Eagles” fizeram na cidade de Winscow a canção “ Take it Easy”...a globalização , o lance sem fronteiras, sem discriminação, não importando se a canção fosse cantada em português ou inglês... isto tudo já estava nascendo ,aki xará, em Porto Alegre no final da linha do ônibus...só viu quem estava lá... a sonhada indústria do disco de Porto Alegre?!?!? Estava dormindo!

Lucas/ - Necão, escutei a gravação do Cowboy feita no “Mosch” em Sampa, sensacional , o andamento, o vocal,aquele solo de guitarra, no final aquela festa toda, se naqueles anos do “Mr. Lee”, vocês tivessem gravado em inglês...puxa... a Lee Company...era a patrocinadora...multinacional...bem que poderia ter feito uma ponte para o Hallai lançar esta música em todos os desfiles da Lee.

Necão/ - Quando gravamos nos estúdios da Continental, o Júlio estava em Nova Yorque, já falei no início, quando ele chegou, o Anele mostrou a gravação pra ele e na mesma noite o Júlio lançou no programa Mr. Lee . Ele primeiro colocou o instrumental , e falava em cima :- Feita aki , Xará, som autêntico de Lee, o instrumental do Hallai Hallai,rodagem máxima dos estúdios da Continental,o vocal do Hallai Hallai , o velho cowboy,pelas estradas de Lee. Depois o Júlio colocava em seguida a música com o vocal e falava mil outras coisas em cima... aquele momento foi indescritível...
o Júlio depois saiu do estudio , e nos disse: Eu estive lá, e parece que foram vocês , que passaram todos estes dias em Nova Yorque. Por isso que eu citei aquela história do “Eagles”,imagine se fosse nos Estados Unidos ,(tô falando da mentalidade empresarial), o grupo lá da Califórnia, de São Francisco (tipo, Rio Grande do Sul / Uruguaiana ) lançam esta canção num desfile da Lee, cheia de energia e falando de um cowboy que só tomava leite, a própria cena americana histórica, que fez a rota dos confederados do sul e dos da União do Norte.

Lucas/ - Mas Necão na verdade , não dá pra pensar assim os gringos estão na frente, eles é que inventaram esta coisa chamada” marketing”.

Necão/ - Aí, é que entra a geografia, o final da linha do ônibus, a polêmica ...O Rio Grande do Sul, pra mim, naquela ocasião, era uma espécie de Novo México sem fronteiras, sem portas, sem telhado, em que a maior ligação deles era com a terra e com o céu, o grande Saara da América do Norte...igual a gente,só que com a diferença de que as nossas fronteiras estavam viradas para um outro lado, as nossas portas também estavam abertas para outro tipo de som,os nossos telhados eram feitos de telhas de barro do fim do mundo, e a questão da terra e do céu tinha aquela dose generosa dos pampas do Rio Grande. Era a hora da grande virada, de colocar um antídoto em todas aquelas influências recebidas do centro do País (Rio / São Paulo) e formar nosso próprio mercado .
O Júlio fez o “marketing”, criou a necessidade, a Lee assinava em baixo... era só pensar um pouco... e fazer o que o Júlio pregava : O Vivendo a Vida de Lee vai ser coust to coust... leiam os críticos da época que escreviam, que aquele momento” era crer para ver e não ver para crer”... Hoje, falar disso assim, parece algo surreal , mas quem viveu o momento , sabe do que estou falando...tudo era possível.O mundo da era digital estava no útero e rebentaria logo depois,...”naqueles anos setenta , como hoje (2009) tudo estava a venda: não só as coisas do super mercado, a música também.
A contracultura começava a ser absorvida pelo establishment. A força das gravadoras era total e absoluta (majors)... me lembro que o Júlio já falava em rádios “FMs”, este assunto vai longe... Dylan na canção “Desolation Row”, diz assim: -Tocam todos apitos de brinquedo/ Você pode ouví-los soprar/ Se inclinar a cabeça o bastante/ Para fora da Travessa da Desolação / Onde adoráveis sereias flutuam/ E ninguém tem de pensar muito / Sobre a Travessa da desolação /
A verdade é o seguinte...a medida que o “Vivendo a Vida De Lee”, crescia , a extensão que já tinha sido conseguida pelo Júlio e pelos músicos permanecia baixa, pela miopía empresarial da Continental... me diz o seguinte...se não era para ter ampliado aquele estudio onde eram gravadas as músicas que o Júlio colocava no ar, os jingles comerciais poderiam ter sido produzidos pelos músicos do movimento (Lee),com isso o tamanho da( rede) Continental poderia ter usufruído melhor de todos aqueles talentos que circulavam pelos corredores , e muitas vezes não tinham nada para fazer. Toda tecnologia que estava vindo e que mudou a música e as mídias, poderia ter sido vinculada com a introdução da onda “FM” que a direção ignorou, ou não quis enxergar... a gente só falava com o Júlio, que era o único que ouvia e tinha a mesma vibração dos músicos em idéias e planos.
A Travessa da Desolação (Dylan), pra mim foi o final de todo o movimento , e o brutal é que as sereias estavam todas ali ,era só ouvir seus cantos.
- Vivendo a Vida Lee – Concerto nº 3 –

No dia 30 de abril(sexta feira) se apresentaram : Bobo da Corte/ Fernando Ribeiro/ Flor de Cactus/ Gilberto Travi/ Inconsciente Coletivo/ Metamorfose.
No dia 1ª de maio (sábado) se apresentaram:Bizarro,Hallai Hallai/Hermes Aquino/Mantra/ Status 4/ Élbia/Beto Barcellos.
Tudo isso aconteceu no ano de 1976 em Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul/Brasil.

...continua na próxima postagem...>

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Crônica de Bob Dylan*




DYLAN*

                                                   BOB DYLAN *

  Escritos da revolução permanente.

Pelo sim
Pelo não
Bob Dylan é um talento original.




Doctrine : “Enquanto tiveres pés para andar, há de haver montanhas para escalar.”
(Bob Dylan)
* DÉCADA /80 -

Esta é a relação dos albúns que me fizeram chegar ao Mr. Tamborine Man , pelo qual fiz a tradução,versão para a gravação em São Paulo.




1º música :* Song to Wood /(Bob Dylan/1962/ 1ºalbúm) canção feita para o mestre Wood Gythrie
“ Bob” conheceu” Wood” em 1962/ Nova Yorque no hospital.







2º* Freewheelin (1963/ 2º albúm) tudo muda com este disco ,mudou a natureza da canção popular,transformou as palavras em armas.
Blowin in the wind tornou-se o hino do movimento de protesto americano.
“ Levanta-te de manhã e caminha de Olhos bem abertos. “ (Bob Dylan)




3º Masters of War/ vem na mesma linha de ataque a uma sociedade que faz crer que as guerras são necessárias para se conseguir certa liberdade fictícia . Senhores da Guerra em que Dylan pela primeira vez diz que deseja que morram “Espero que morrais/ E que a vossa morte chegue depressa”.
4º A Hard Rain’s A Gonna Fall / Uma canção de desespero /Foi escrita durante a crise dos mísseis de Cuba (1963)./O Mundo nunca esteve tão perto de um conflito nuclear.
A linguagem desta canção é fúnebre.A visão a beira de um abismo.
5º Oxford Town / É um ataque satírico a segregação racial nas pequenas cidades do sul dos EUA, como que uma canção reportagem.
6º/ 1963 /Bob Dylan /Participa do Festival de New Port e torna-se o Leader incontestado do movimento nascente da canção americana de intervenção.Uma nova consciência despertava apesar da histería da beatlemania.

7º* The Times They Are a- Changin’( É o seu terceiro albúm (1964))

Este albúm fecha o ciclo do Dylan propagandista e documentarista musical.
Dylan foi mais duro,mais sério,e também mais contraditório nas suas concepções sociais.Dylan antecipou o espírito da contracultura.


8º With God On Our Side /Esta música é um monumento fundamental deste disco .( disco/ The Times Are/iten 7) ,é uma das canções mais politizadas e pessoais de toda obra de Dylan .
A letra descreve as páginas mais obscuras da história Americana.



9º *Another Side of Bob Dylan / Editado 1964/ 4º albúm ruptura/Dylan tinha desertado da política e então começa a cantar canções pessoais. A cena musical ainda estava digerindo os seus albúns anteriores. A música Motorppsyco Nightmare , poema surrealista, fala com humor das aventuras de um vagabundo por uma das zonas mais reacionárias dos EUA,o Midwest.





10º* Bringing it All Back Home (5º albúm /1965) Foi um escândalo,uma parte do disco era acústica ,outra era elétrica,tendo permanecido em Londres Dylan ouviu todos os grupos:Beatles, Stones,Animals,Who. Dylan regressa a Nova Yorque com idéias novas e impressionado com o potencial da instrumentação e abre um novo caminho na música americana.Foi chamado de traidor e facista no festival de Newport, templo da música folk . Dylan tinha traído a causa politicamente e artisticamente.


11º A música/ Bob Dylan 11th Dream é uma canção onírica,alucinante através de uma América povoada por homossexuais,anões e prostitutas.Faz parte do albúm 5º de sua carreira( 10º item).


12º Mr. Tamborine Man /É um hino ao êxtase da música, a cor, as drogas/
É um escape da realidade e que se convencionou chamar “real”.
Dylan canta os músicos ambulantes, o senhor da pandeireta que nas ruas de Greenwich Village vendia” chocolate” cabeça de negro , escondidos nas cavidades do pandeiro.Dylan entrava num novo paraíso,em que o escape para parte alguma fazia romper todas as teorias políticas. A esquerda puritana podia ficar com Deus ao seu
lado.


13º It’s All Over Now, Baby Blue É a canção final e essencial deste Álbum
( item 10º ) Quem é Baby Blue? A explicação mais aceitável é que é uma nova projeção do próprio Dylan, um adeus reiterado ao seu antigo personagem, assim como ao seu antigo público, comprometido com a luta , mas eu acho que esta cançaõ pode ter sido a história de uma prostituta que começa uma nova vida.



14º *Highway 61 Revisited ( 6º albúm / 1965)/Este disco é a ruptura total,é um disco de rock. Dylan aparece acompanhado por alguns dos melhores músicos da cena rock. É considerado pelos experts ,uma das obras primas da música rock.







15º Like a Rolling Stone , foi considerada a canção mais explosiva, jamais gravada em vinil. Nunca antes se tinha conseguido verbalizar um texto tão complexo com um acompanhamento musical tão perfeito. Canção com 6 minutos .A mais requintada de Dylan,ela conta a história de uma garota que nas praias douradas de sua estupidez, pensava que pedir para comer era uma pose estética dentro das novas formas de expressão, até ver-se mendigar pelas ruas de N.Yorque,completamente só e perdida. Ela se sentia invisível dentro de uma cidade monstruosamente organizada. Assim a bela princesa, sem cavalheiros nem palhaços , tinha que ir para a saída do metrô e pôr-se à disposição de qualquer comprador de prazeres carnais.
(item 14º/ 6º albúm)


16º Highway 61 Revisited / É uma viagem pela estrada 61/
Uma viagem através da violência nos EUA. Inclusive nas íntimas e felizes
relações familiares/ (item 14º/ 6º albúm)


17º Tombstone Blues/ Dá-nos uma visão dos limites em que se desenvolve a vida contemporânea.Dylan, introduziu-nos numa serie de contos localizados em lugares históricos simulados e criados para o efeito. Quem imagina São João Batista a
torturar um ladrão,pois em Tombstone o comandante decidiu que o sol não é amarelo, e quem duvidar irá para o corredor da morte. Quem tem demasiado poder obriga seus lacaios a acreditar em histórias ridículas e não existe mais nada senão uma eternidade em termos de ignorância. (item 14º/6º albúm)



18º* Blonde To Blonde ( 7ºalbúm /Setembro 1966)
Os críticos emudeceram.Os músicos declararam que aquilo era insólito.Dylan foi considerado a figura mais genial dessa década de rock. Era um intrincado concept-album percorrendo todo seu universo pessoal, fluindo do caos e da desordem surrealista embebido ainda de uma empolgante visão poética e de uma envolvente sensualidade. Este album duplo é unanimente considerado o melhor de toda a obra de Dylan e, para muitos o melhor de toda a música rock.


19º Rain Day Women nºs 12 & 35 / Dá-nos, de certo modo, uma visão das relações sociais através de um jogo de palavras provocado pela repressão cultural. A mesma palavra (stoned)designa literalmente apedrejado, mas designa também, na linguagem da contracultura, alguém que está sob o efeito da droga, ou seja “pedrado” ou “com uma pedra”. Dylan diz na música –“ Toda gente devia apanhar uma pedrada”.
Se antes tinha cantado os seus sonhos de poeta social agora estava dentro de um círculo de pessoas que tinham perdido toda a esperança de uma mudança social para se refugiarem na gratificação dos sentidos que a música e as pedras lhe proporcionavam. ( 18ºitem/ Albúm 7º)


20º Leopard-Skin Pill-box Hat /Uma canção de humor devastador de Dylan atinge um dos seus pontos culminantes. (18ºitem/Albúm7)


21º Sad-Eyed Lady of The Lowlands/ É por muitos considerado a obra prima dentro da obra prima. É uma longa balada de mais de onze minutos preenchendo toda a quarta face do álbum.É um poema muito opaco, com um sentido e direção muito próprios,
mas extremamente dfícil de compreender. Fica o fato que só muito raramente uma mulher de sonho terá sido descrita com uma beleza tão selvagem.Na verdade é um Dylan desesperado e uma América cada vez mais putrefata.
.

22º* John Wesley Hardin ( 8º álbum) (janeiro-1968)
Um ano e meio depois de “Blonde”.Dylan tinha sofrido um grave acidente de moto ,tendo fraturado o pescoço. Ficou mais de um ano fora da cena musical.Dylan se desgatou muito neste ano que ficou fora com drogas pesadas (LSD e Heroina). Neste disco algo tinha mudado nele irreversivelmente. Este disco conta a história de um bandido e o poema esta tão repleto de alusões(referindo-se a ele mesmo) que , pelo seu simbolismo supõem-se autobiográfico.




23º All Along The Watchtower/ É um poema denso parecendo encerrar as palavras de um homem que se teria vendido ao sistema. (item 22º)(8ºalbúm)


24º Drifter’s Escape/ É Dylan perante os seus juízes, desta vez num Tribunal.



25º* Nashville Skyline(9º albúm)(1969) De um fulgor original,como folhas de relva,com estrelas,com Montanhas.Lp que marcou a minha vida para sempre, O clássico “GIRL FROM THE NORTH COUNTRY, se tornou um hino folk nos EUA.,(A garota
que Veio do Norte) ,LAY LADY LAY (Deite-se, Senhora, Deite-se) TELL ME THAT IT ISN’T TRUE (Diga-me que não é verdade) e a Balada TONIGHT I’LL BE STAYING HERE WITH YOU ( Esta Noite ficarei aqui Com Você ) Foi um disco com estrelas, e com alma Dylan encerrou Década de “60” com a cicatriz fechada.


Bob Dylan, semeou com sua obra uma das épocas mais empolgantes da história da música . O trabalho de Dylan ficará escrito nos fatos da década de sessenta que mudou o Mundo; o louco circo da cultura e das subculturas”.Se eu não tivesse passado por ela , não acreditaria que ela tivesse existido”.
Bob Dylan farejou tudo, foi um porta voz desta era (anos 60) da vida Americana,
"A década do eu”, como Wolfe a descreveu.



CANÇÃO PARA WOODY

Bob Dylan
A tradução da primeira música que Bob fez para o músico que o
acordou / WOODY GYTHRIE


Aqui estou a muitas milhas de casa/
Seguindo uma estrada que outros homens percorreram/
Vendo o teu mundo de pessoas e coisas/
Os teus pobres e camponeses e príncipes e reis/


Hey, Hey, Wood Gythrie, escrevi uma canção pra ti/
Sobre um estranho muito velho revelando-se a meus olhos/
Parece doente e tem fome e cansaço e está em pedaços/
Tem ar de moribundo e ainda agora nasceu/


Hey, Wood Gythrie, mas eu sei que tu sabes/
Tudo o que eu estou a dizer e muito mais/
Canto para ti e não digo o bastante/
Pois poucos homens há que tenham feito o que fizeste/


Aqui saúdo também Cisco e Sonny e Leadbelly/
E toda a gente boa que contigo viajou/
Saúdo os corações e as mãos dos homens/
Que surgem com a poeira e partem com o vento/


Vou-me embora amanhã, mas podia ser hoje/
Pela estrada fora num dia qualquer/
A última coisa que me agradaría fazer/
Seria dizer que também percorri um duro caminho/
- Fim –


Bob Dylan, no final de 1961 chega finalmente a Nova Yorque para ver Woody Gythrie, então hospitalizado. Bob sempre viu nele um talento excepcional. Wood, se emociona e lhe dá inúmeros conselhos e sua amizade.
Robert Allen Zimmerman, seu verdadeiro nome, nasceu a 24 de maio de 1941 em Duluth, Minnesota/EUA. Mudou, em 1960 o seu nome para Bob Dylan (de Dylan Thomas/ poeta americano)


- Mr. Tamborine Man -
Esta pesquisa foi feita por mim na metade da década de oitenta.
Pensei, naquela altura, que uma versão para alguma música de Dylan poderia dar um novo flash no repertório do Hallai.
Para definir qual canção, fui procurar no “quintal da década de sessenta”,qual artista que poderia entrar em nosso repertório e cheguei no personagem complexo de Bob Dylan. Como sempre fui chegado em mitos e lendas e por ter escutado muito o álbum “Naschville Skiline” num velho “prato “ que eu tinha no Bairro da Glória , Bob Dylan foi o escolhido.
Para chegar ao Mr.Tamborine Man, percorri vários caminhos, entre Porto Alegre e São Paulo a procura de informações (não existia internet- década de /80), fiz várias traduções para entender,li muito sobre o poeta, escutei todos os discos lançados por Dylan na década de sessenta, visitei todos os sebos de São Paulo e Porto Alegre, em nossa cidade não encontrei quase nada, em Sampa muita coisa em livros, encontrei a maioria dos discos na praça Benedito Calixto, no bairro Pinheiros.
Fiz uma “radiografia” minuciosa nas canções de Dylan /60, e depois de muitos dias e noites, cheguei no MR. TAMBORINE MAN. Primeira coisa que fiz foi traduzir a música com meus parcos conhecimentos da língua inglesa,comprei um dicionário de expressões idiomáticas e também livros da década de sessenta para entender a “onda”, que eu na verdade tinha vivido na minha adolescência.
Tinha ouvido muito pelo rádio aquelas canções que mudaram a forma de verbalizar todas aquelas viagens “metafóricas” dos poetas e dos músicos. (-) Enfim, mãos a obra / A IDÉIA de Dylan na canção não foi violentada, pelo contrário , apenas o número de versos é que foi simplificado, mas assim mesmo coloquei mais versos que o grupo”The Byrd’s , banda que gravou a música nos anos “ “60”. Mr. Tamborine Man, na verdade era um simbolismo daqueles jovens que vendiam drogas (chocolate /cabeça de negro) em GREENWICH VILLAGE dentro de um pandeiro, pelas ruas do bairro. Quando verti, a idéia para o português, tive uma antevisão de toda problemática que estava para acontecer no Brasil, o Collor tinha ganho as eleições e a geração “camelô”, entrou de malas e bagagens no país. Ali, foi a bomba “C”, solta no solo brasileiro. “Senhor Camelô”, era o nosso “Mr. Tamborine Man”,porém com uma dramaticidade muito mais social do que aquela de jovens vendendo “drugs”,o que no começo vinha com toda aquela estética moderna amparada por músicas da moda nos EUA. Um mês antes do Hallai-Hallai entrar em estúdio a música estava pronta e mostrei para o pessoal do grupo.Uns ficaram assim ..surpresos e ... gostaram....quando mostrei para o nosso produtor,e contei sobre todo trabalho exaustivo da pesquisa e o que representava aquela canção no “Gran Monde”, Michael (3M), ficou entusiamado e emocionado, não sabia de todo aquele aspecto histórico da canção que ele gostava muito, e disse : Nós vamos vender 500 mil cópias na primeira rodagem...podem apostar..e se preparem ! O pessoal do grupo nunca soube disso, aquela música agilizou a entrada no estúdio do “Mosch” do projeto Hallai. Eu não poderia esperar mais, e o grupo ( Paulinho ,Robson & Jorge) que estavam hospedado no “Lord Hotel”, no bairro Santa Cecília (Padroeira dos Músicos) estavam precisando de trabalho. Levei 6 meses para aprontar a letra e colocá-la em (E) mi maior, O original é em (D), ré maior.Aquele novo tom deu uma “cara” Hallai a música, tirou aquele toque solo americano e revitalizou a canção que ficou feita para vocal Hallai. A liberação da editora que detinha os direitos da canção, foi demorada, eles custaram a remeter a gravadora o documento de autorização. Foi estudada cada palavra da adaptação.
Tudo isso acontecia nos bastidores. Eu e o Michael vivíamos toda esta longa espera , e os problemas estavam a nos rodear.
O restante desta história está no depoimento . É imperdível o que aconteceu. Aguarde !? (década de 80 /isto aconteceu)


“hey ! Mr. Tamborine Man/ play a song for me/
I’m not sleep and there is no palce I’m goig to/
Hei ! Mr.Tamborine Man/ play a song for me/
In the jingle jangle morning I’ll como following you/
(
(B.Dylan)




MR. TAMBORINE MAN
(Sr.Camelô)
by Necão



Hey, sr. Camelô

Toque uma canção pra mim/
Estou sem sono e não tenho para onde ir/
Hey, sr. Camelô
Toque uma canção pra mim/
Na manhã ruidosa eu irei contigo/


Embora saiba que o império/
Da noite se desfez em areia/
Me escapou por entre os dedos/
Me deixou aqui cégo/mas ainda sem dormir
O meu cansaço espanta-me/
Mas tenho as pernas firmes/
Só não tenho ninguém pra ver/
E a velha rua vazia/
Esta demasiada morta pora sonhar/


Hey, sr. Camelô / (refrão)


Leva-me em viagem/
No teu estonteante barco mágico/
Estou pronto a ir para qualquer lado/
Estou pronto a desaparecer/
Lança o teu encantamento/
Que eu prometo segui-lo/
Os meus pés estão pesados/
As minhas mãos vazias/
Os meus sentidos amarrados/
O meu tambor de palhaço esfarrapado/
Embora possa ouvir danças loucas ao sol/


Hey, sr. Camelô (refrão)


Pelas ruínas do tempo/
Bem além das folhas geladas/
Distante do alcance da mente/
Longe de uma tristeza louca/
Recortado pelo mar/
Cheio de areia circenses/
Camelô, das praias ventosas /
E, de todas as esquinas do mundo/
Coloque a venda de imediato/
Todos os sonhos da mente/
Assim eu esqueço o dia de hoje/
Até amanhã !


Hey, sr. Camelô (refrão)

quinta-feira, 25 de junho de 2009

VILA PILAR*

VILA PILAR
(ROMANCE RUSSO)
- Final década /50 -

by / NecãoCast

...
Este verísmo pode estar do teu lado agora, em qualquer lugar , basta você olhar e escrever, 

            comigo, aconteceu assim ...

O ambiente da rua Gravataí já te levava a uma atmosfera psicológica profunda , uma estranha galeria de tipos humanos .

O grotesco , o trágico do cotidiano, depositados numa terra fértil com construções rígidas , mas que não se amoldavam gratuitamente a nenhuma fórmula .

Uma tempestade de neve eterna ,descia sobre a minha cabeça quando eu dobrava a esquina da “Gravataí” para entrar naquela rua da minha infância .

Alegorias, tapete mágico,cabelos inarredáveis...tudo isso e mais um pouco, quando eu encontrava a Laura, a Helena e a “Tia Perica”.

Era uma coisa genuinamente russa, parecia que eu estava em S.Petesburgo ou coisa que o valha.

Uma linguagem especial acessível , com uma melodia de nobreza ,  vinha sempre delas.

Logo depois do portão tinha um monte de lenha, e aquele perfume “Lemmer” solto no ar.

Aquilo tudo parecia ter sido fotografado da “Gazeta de Moscou”, a fábrica com aqueles tonéis de essências para a fabricação daqueles perfumes de “Ucrânias” e “Sibérias”.

Tinha também o Paulo, o Ândia e a Ivone; e uma figura impenetrável que era o “Tio Henrique” .

Ele parecia um antepassado, um homem da floresta selvática, orgulhava-se de sua nacionalidade, e gostava muito de um biscoito molhado no chá.

 Quando estava embriagado chorava, “que vida de cão”….dizia ao vento ...mas era uma “montanha”, jogava boliche como ninguém e dava uma palmada muito forte ,quando encontrava algum conhecido pela rua.

O “tio” Henrique , tinha vindo para este mundo para montar em touros , mas fabricava perfumes.

O final da década de cinquenta estava terminando na rua Gravataí e uma colorida realidade pictórica surgia junto com uma invencível tristeza.

A tia Pilar (Perica),era um fiel retrato da alma russa, mesmo tendo origens argentinas ,era de uma notoriedade especial dentro da família, a irmã mais velha, a conselheira, tinha paixão pelas viagens, sentia-se recompensada pela posição que ocupava ,
 e com os filhos compartilhava seus prazeres.

A tia Pilar era uma mulher grande e calma, não era modesta , orgulhava-se de seus filhos , principalmente da Helena e da Laura,com aqueles magníficos cabelos penteados, saias godês , blusas de banlon, ao som de “rock around the clock”

 que eu ouvia no radio Kliper , num espaço de tempo tão longo , que eu não entendo como coube dentro daquele rádio.

 A Laura era aquela coisa Rita Haywort misturado com Ava Gardner e a Helena que já era “lora” ,
 levava o estilo Gingers Rogers misturado com Marilyn Monroe com uma pitada de Brigit Bardot .Os olhos das duas eram semelhantes aos mistérios do espírito santo .

Nas festas de final de ano, a “Vila Pilar” parecia uma cauda de pavão, o céu sempre estava claro mesmo a noite;
meu coração batia com ímpeto, todos juntos, a família viva, era um conjunto elegante , com o título : MEU FILHO É MAIS BONITO QUE O TEU !

A “Vila Pilar”, mantinha na sua própria senha o mito das possibilidades infinitas , mas ao seu lado corría uma mística que apontava para um lugar que não teria um “happy end” feliz.

A única certeza que eu levei depois da “Vila”, foi que eu tinha sido criança, tinha pulado na grama sob as árvores sombrias , enquanto a mãe, me acompanhava.

Tudo que eu senti e vi, dentro daquele mundo de tempestades nunca saiu de minha cabeça,
era sempre uma revolução que estava em marcha, uma casa de aparência robusta e bem alimentada, mas tinha sempre uma expressão faminta, de uma fome voraz e desesperada de vida.

Hoje eu tenho certeza que nadei nas águas turvas do rio Volga, e não sabia de nada.

“ The answer, my friend / is blowin`in the wind /
The answer is blowin ìn the wind .
(Bob Dylan)
- The end -

terça-feira, 26 de maio de 2009

>DEPOIMENTO > ( 4 )






VIVENDO A VIDA DE LEE 2°CONCERTO*


                             -VIVENDOLOGÍA DE LEE-
Depoimento: Necão Cast*
Participam: Lucas*Nanda*Fanni*Marco
Entrevista gravada em maio de 2009*

                                                                             
                                                     Estréia do Hallai!!!!


CONCERTO / - II –
DATA : 9 DE NOVEMBRO DE 1975.
Local: Araújo Vianna
Porto Alegre.
Estréia do Hallai Hallai
Sid , Paulinho & Necão.

SID CAST*PAULINHO ZAM*NECÃO CAST

P/ Fanni – O concerto número dois, foi o da estréia do Hallai, antes do grupo entrar no palco, me fale um pouco da nossa cidade...como eram as coisas todas que rolavam por aí ?

R/ Necão – Pra vocês terem noção, o presidente do Brasil era o General Geisel ,e o prefeito de Porto Alegre era o Vilela; Me lembro que ele tinha inaugurado duas praças... (risos)... a praça Argentina e a Raul Pilla... morava na Salgado e gostava de apanhar sol nas duas praças...foi ótimo..., a energia que rolava na cidade pra mim , era aquela coisa do Hallai...,tudo direcionado a favor do grupo, pois as nossas músicas estavam a mil, rodando no Mr: Lee, ...claro que todas aquelas razões ideológicas do MDB e da ARENA , os únicos partidos que existiam, levavam toda aquela complexidade para as cabeças das pessoas,...,reivindicações nacionalistas, apoio a certos direitos ; Interesses pessoais , claro que a gente vivia tudo isso, aquele mundo instável em uma sociedade despreparada para se defender.... neste mundo inseguro... nós todos do grupo, nos refugiávamos, atrás das muralhas musicais do HALLAI .
...Aquela coisa de esquecer não existia.... eu pelo menos procurava ler a cidade a minha maneira,...me lembro que aqueles filmes históricos, estavam nas telas dos nossos cinemas...Woodstook, no Capitólio ali na descida da Borges,o Gime Shelter , no Cine ABC , na Venâncio ...até o Juventude Transviada , tava passando no Vogue, da Indepê , cinema de arte... as coisas custavam a chegar por aqui , não é como hoje , passou lá... passou aqui... me lembro também que o grupo “ Terço”, O “Liverpool”, e os “Mutantes “ estavam preparando um grande show para o “Gigantinho”..., o Paul Mcartney já estava com o grupo “Wings”... eu fiquei “p” com isso...me lembro ...achava uma traição para com os outros dos Beatles... nem todos , também, conseguiram entrar no Vivendo a Vida de Lee , e estavam vivos também na cidade...o Grupo Pentagrama, do Ivaldo Roque , Jerônimo Jardim e da Loma tocavam num bar famoso chamado “Vinhadalho”, o Cândido Norberto tinha uma coluna na “Zero Hora “ chamada “Sala de Redação”...a Lúcia Helena , também já estava no pedaço,(como se dizia) na noite de Porto Alegre... a Anna Mazzotti e o Tijolinho já faziam aquele “jazz” com o grupo “Desenvolvimento...o famoso café “Rian”, da Rua da Praia.... as boutiques da 24 de Outubro, e da Indepê.... parecido com aquele clima da ”Oscar Freire ”... não existiam shoppings....nem internet... e,muito menos telefone celular... as novidades estavam nas ruas, e você tinha que descobrir, no faro do perdigueiro pessoal, do seu nariz...já tinha também questionamentos sobre os parcos investimentos no cinema gaúcho... as mesmas discussões de muitas coisas, que ainda hoje se falam ! ...outros músicos já estavam também na batalha , o Bebeco Garcia, O Mutuca ,...eles não viveram a vida de Lee , o que foi uma grande perda para a história de Porto Alegre, pois eles tinham tudo a fazer naqueles concertos...,o Lutzenberguer já defendia as árvores de nossa cidade..., o “Lupi” , já não existia , somente suas músicas estavam a tocar nas noites do Porto. Estes são os primórdios de todo este caldo cultural (1975)... parece primitivo...mas esta era a atmosfera que nos cercava...,a gente lia “Uma Estranha Realidade” do Castaneda, e se sentia bem feliz... voltava para casa e encontrava a família, aquela segurança, todos vivos,e a música rodando na “super quente” ...’Good-Good Night / Cinzenta América//Do homem Ouro/ Dhinnero / Money!/..tum...dum ...dum...dummm.(no bordão).!
Tanta coisa ....a gente acreditava na virtude.../ 1975; a memória me leva apenas a esta superfície, tudo foi mais profundo,mais intenso .


Lucas- Necão, senti uma rota de colisão, entre este mundo que tu relatou com o mundo que nós vivemos hoje..(.a sociedade virtual)...a batalha pelo acesso a vida , e as oportunidades eram bem menores, muito mais sacrificantes, eu acho, que por isso tudo, o valor de um projeto artístico era bem maior,tudo era mais focado, mais único, hoje os artistas de um modo geral , não se fixam mais em determinada coisa, aquele som feito pelos amigos de infância é jóia rara, o som do bairro, aquela “bebida” compartilhada depois do ensaio, aquele “dá um abraço no teu pai “ , que revelava o convívio familiar , e o pé na estrada.. O som dos anos 60 e 70, levam na “mochila”, todas estas delicadezas das pernas e dos pés que na verdade construíram a passos as notas do rock ,blues,folk, e tudo o mais.

Necão/ - As coisas hoje estão mais evidentes, a realidade está muito mais presente, hoje é a fábula do fraco X forte.....e com a trilha que leva o nome ...-“ “ - "te orienta rapaz , não sonhes muito" .
Antes era assim...quando Neil Cassady encontrou Kerouac em Denver , disse. “ Seu filho da puta, finalmente você caiu na estrada”. (1960) ( hurra !...e palmas !)
( On the Road)
-
AUDITÓRIO ARAÚJO VIANNA-
Domingo/ 9 de novembro/1975

Nanda / - Fala aí Necão...chegou a hora da estréia do HALLAI ?

Necão/ - A ascensão até chegarmos neste grande dia foi aberto entre cinzas e areia movediça ...cinzas , porque nós, Sid / Paulinho & Necão estávamos no periodo da muda da fênix...saímos do Rio...fizemos as “Rodas de Som” do Arena, e agora , Vivendo a Vida de Lee.. (5.500 pessoas).. / areia movediça, o palco do “Araújo Vianna” estava nos esperando como um crocodilo, a qualquer momento ele te cortaria em pedaços ... nós 3 , num cérebro só , com violas Plugadas com fita isolante pelo Egon da Cotempo ; na história do “Araújo”, nunca soube de uma lotação de 5.500 pessoas , tinha gente na marquise do auditório... nossos violões apesar de serem lançamentos da “Del Vechio” eram naturalmente violões nacionais , comprados na “Mesbla” (Sid & Necão ) o violão do Paulinho era o famoso “velho xerife”, um gianninni histórico , mas também sem captação...violão importado naquele época , quem tinha era considerado o “cara”...me lembro que nós ensaiávamos toda semana no bairro da Glória (casa do pai) ... preparamos as músicas que a gente curtia e que estava rodando no mr: Lee...era um dia de sol em Porto Alegre...o Júlio, agitou durante 10 dias a mídia do concerto do “Araújo”... incendiou a cidade...- É aki xará que rola o som natural de Lee...som feito com rodagem máxima nos estúdios da Continental...dia 9 no “Araújo” o som de Lee...a gente escutava todo dia, colado no rádio...na mesma semana o Júlio levou todos os músicos na “Ordem”para regularizar e tirar as carteiras de músicos...todos foram em Canoas...e fizeram os exames ... o Júlio pensava sempre no outro lado da moeda, (dólar) a coisa não vai ficar só aqui no Rio Grande do Sul, dizia ele...Coast of Coast...pregava ele ...o Brasil vai tremer com a “Vida de Lee”... e a hora chegou...me lembro que o Sidão disse, que iria acender algumas velas, conselho de um guru...os bastidores do “Araújo estavam demais ...era músico pra tudo quanto é lado...afinando , ensaiando...dando os últimos retoques ...cada um no seu camarim, dividido com panos ...se me lembro bem...toda inteléquia de Porto Alegre estava presente, até o Glênio Reis, o grande Glênio...foi o primeiro cara que nos viu tocar nos anos “60”, junto com o Salin...os dois produziam o programa na T.V. Gaúcha do próprio Glênio...existia uma ligação entre todos ...a arte não é ilusão...”que venga el toro”...era cereja com torta de sorvete,(On the Road).
O Carlinhos Tatsch do “Bizarro”, com aquela expressão londrina , jovem com cara de frio....(risos) ...uma figura.../ o Inconsciente Coletivo...3 jovens nascidos das páginas de Shakespeare com um forte love history folk...um barato/...o Hermes Aquino...com aquela cara Frank Zappa/...o “Utopia” tinha todo um astral de “Mutantes...era o novo...violinos , violões... aquela coisa de Porto Alegre...moderna...tipo assim Museu do Margs...com todas as telas nos salões
expostas a plebe ignara/...o Kalique e o Garaí já estavam juntos naquela época...com o grupo “Mercado Livre”... era um som rural técnico/...o Gilberto Travi ...e o mano dele ...gente especial...o vocal das meninas era muito bom/...
...o Zacarias era uma coisa meio “Santana”/...o Fernando Ribeiro, o Toneco e o Arnaldo ...faziam aquela “cara” de MPB... tipo ...-“Um país de escravos é um país sem povo”...eles seguravam esta parte com grande afinco/...o Eduardo Pires e seu mano Ewerton Pires...faziam um som muito legal com o grupo “Metamorfose”..altos violões/...o Mantra do Zé Flávio... era demais... um som progressivo...tinha aquela cultura individual..”.mistura de centro do país” com ecos londrinos americanos/...o Status 4...que depois foi 4+ 4 , vocal MPB com forte influência “daquele jeito Sidney Poitier”, misturado com o Harry Belafonte,/o “Flor de Cactus” parecia aquelas bandas de Berlin, com um super ego todo de Novo Hamburgo, achei assim...tipo “Almoço Nu... do Willian Burroughs/ ......o “Araújo Vianna” não tinha teto, era o maior barato(beleza), aquela concha acústica branca, parecia uma “White Mountain”, de dia o sol , de noite a lua e as estrelas, os astros participavam também , dando toda aquela beleza natural de Lee (risos)...tem um aspecto aí , que eu não posso deixar de falar , e que isto fique registrado com louvor ...foi o comando , a liderança, e o astral do Júlio, (Mr.Lee)...eu acho que foi o grande ápice da carreira do Júlio...ele acreditava muito mais que nós naquele movimento, e naquele dia ele representou como nunca , aquele “Velho Cowboy “ defensor das mocinhas incautas e virgens da cidade de “Santa Fé”...o movimento tinha aquela coisa de “Born to be Wild”,(” Easy Raider “)apesar, de naquele dia , ter muito som, que não tinha nada a ver com o mundo de Lee...mas aquilo era apenas uma amostragem , depois eu entendi...o Júlio representava também aquela “terra sem fim”, uma linha reta sem limites...passando por florestas ,pântanos,desertos, montanhas,em busca da terra do encantamento/...

Já era noite , quando o Mr. Lee, chamou o Hallai Hallai ao grande palco do “Araújo”, .. com aquela voz de FM,”- -PESSOAL SACA ESTA NOVA BANDA DA GRANDE PORTO ALEGRE, É O HALLAI HALLAI, MUITA VIOLA E VOCAL .


                                                            Sidão & Paulinho Velho Tchêrife


A sorte estava lançada, e nós pisamos pela primeira vez as pedras do palco do “Araújo”....3 caras , 3 violões...3 vozes ...solo e contra/solo base....começamos com uma música com acordes “woodstookinianos”, novinhos em folha.... . esta canção tinha 10 minutos...olha só a coragem ...naquele momento o “Araújo” estava completamente lotado...a introdução era” pau puro “ (risos), rang...tang...rang..
tang...rang... eu entrava/ ...BATA DE NOVO JOE LOUIS / NOVAMENTE BRENDA / FALE SOL , LUTHER KING/ MARYLIN, SORRIA.../NO AZUL DO HAWAI.../ LENNON AGAIN.../POR FAVOR LIVERPOOL / REI PELÉ FAÇA O GOOOL/ REI PELÉ FAÇA O GOOOOOOL !/ (puta vocal)
...obs. entrava vocal a partir de”Lennon again” /3 vozes...depois Cantamos “AMÉRICA”, que estava rodando no programa , TRIBUTO AOS BEATLES, que também rodava na Contí.
VENTO MINUANO” ...música que mostrava um outro lado da cidade, com citações em linguajar/ street & campo...fizemos ,também SOM ,PROMESSA , HALLAI...e a música GUAIBA...uma canção com acordes; tipo Carol King;... que mostrava o valor da água do nosso rio...tudo saiu muito bem...sem contra baixo, sem teclado e sem batera... sangue puro das estradas secundárias da grande Porto Alegre...só violão e vocal...pra/ 5.500 pessoas... inesquecível, quando tocamos a música “AMÉRICA”, ela estava rodando , a mil na “Conti”e, o público ouviu em silêncio total...e uma grande ovação no final comprovou, que o desafio de apenas 3 violões e vocal era o caminho do Hallai...”Se você piscar os olhos quando passar por esta estrada, você não verá Winowa “.
(Route 66)

Marco / - Na opinião do Necão, quem realmente estava no espírito do movimento, e que a história , depois registrou, como um “Woodstook”de energia em plena Porto Alegre ...foram ... Júlio Furst (Mr.Lee), Inconsciente Coletivo, Hermes Aquino, Bizarro, Fernando Ribeiro, Hallai Hallai, Mantra, Utopia, Flor de Cactus , Almondegas.
Isto representou o novo, naquela noite do( 2º ) Concerto do “Vivendo a Vida de Lee). *** Ali naquele palco do “Araújo Vianna, foi tatuado na pedra ...! “TU ÉS FOLK , E SOBRE ESTE PALCO , EDIFICAREI ESTE MOVIMENTO”.

P/ Lucas – Necão, aproveitando esta frase ... se tu fosses fazer uma análise, tipo assim...café filosófico....como seria este dia do 2º Concerto ?

R/ Necão – Deixa eu pensar um pouco... ( - ) eu levaria para o lado das lendas,
“As mil e uma noites”, com toda aquelas fantasias...o “Araújo Vianna “ seria a grande lâmpada, o Mr. Lee , (Júlio), o gênio da lâmpada , nós músicos os “esfregadores” da lâmpada , e a Princesa Badrulbudur nosso objetivo final !


Tudo isto aconteceu no dia 9 de novembro de 1975, num domingo !

(...continua na próxima postagem...)


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