quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A FILHA DO DR° OZÉAS*





          A FILHA DO DOUTOR OZÉAS

                                                            by*Necão* década 60

Ninguém poderia prever a que horas ela passaria na avenida.
Eu , o Índio, o Zeca, o Lico, o Carlos Baladão,e alguns estranhos a nós;a turma do Agrimer, alguns do Aliança , e outros do Comércio, ficavam também a esperar o inusitado automóvel Ford Perfect (1947), do dr. Ozéas, que todos os sábados , ia buscar sua filha em Porto Alegre, que estudava num daqueles Colégios em que as meninas num “dolcefarniente”, tinham aulas de latim, francês, inglês e eram protegidas dos amores infelizes.



Quando o carro apontava lá no Bar Garça, alguém gritava : é ela ,um silêncio fulminante segurava o último sopro de todos nós, então ela passava como um jato, e depois com um esforço supremo, voltávamos a realidade, e a luz da alma, voltava a acender ... o que tú conseguiu ver... o Zeca bradava, eu vi o cabelo dela, o Índio discursava, pô não deu pra ver nada o dr, Ozéas me paga, não vou mais consultar com ele...o Carlos educadamente , eu vi os braços... o Lico no luxo , as mãos ...que mãos , ela deve tocar piano... eu olhava pro todo , mas não via nada , apenas um vulto , e eu como um náufrago, ficava perguntando como é isso , como é aquilo...enfim !

Todo mundo ficava comentando , levado por um indefinível impulso, toda aquela índole, toda aquela elegância,aquela coisa poética e fidalga da filha do dr. Ozéas.
Aquela “Ilha do Tesouro” em que nós vivíamos por momentos terminava, pois ela morava lá em cima numa casa , que pra nós era um castelo de príncipes e princesas,e que nossa imaginação viajava por ricos toucadores, com espelhos de cristal, com velas côr de rosa muito acima dos primores do luxo.

O engraçado disso tudo, é que ela tinha um lugar especial em nossas cabeças, aquela coisa que a gente guarda na gaveta, e vê, de vez em quando.


O zeca, certo dia fez um desenho da filha do dr. Ozéas,
...me lembro que todos deram opinião pra aquele esboço,
...alguns achavam que tinha de colocá-la num chambre de seda...na parte superior , abaixo da gola um brazão de ouro com um lindo monograma bordado
“A Filha do dr. Ozéas.
                                                                             
Os cabelos lisos natural, tipo assim Natalie Wood, (West Side History);as mãos de Stravinski,longas e cheia de dedos, pra colocar os anéis mais finos da Joalheria Líder, a mais cara da cidade.
Tudo com muita arte, os pés ágeis de bailarina ,um turbilhão de imagens misturados a fábulas antigas de carruagens escarlates, com muitos enigmas.

Tudo era cintilante, e todos chegavam a sentir no ar o perfume da Coty, quando o assunto era a filha do dr. Ozéas.

Nunca chegamos a conclusão unânime quanto ao rosto e ao corpo, ficávamos exaustos de tanta discussão, fizemos até num domingo, uma” campana” perto da casa dela , mas só de longe ela aparecia por entre as cortinas daquelas janelas de cinema.

Ela não freqüentava os Clubes da cidade, raramente saía pelas nossas ruas, a gente pensava nela olhando as estrelas, as flores, nos cartazes do Cine Imperial,ou em alguns versos que de vez em quando a gente ameaçava fazer.

Ela não era aquela coisa de amor eterno, a turma toda pensava nela como uma valsa, um primeiro raio de sol ,naquela cidade que nos acordava aos poucos por detrás dos muros de nossas fantasias de guris.


A nossa comunidade tinha três médicos ...dr.Paulo, dr.Erwino e o dr. Ozéas, este era especial, quando a gente avistava ele na faixa, o assunto era falado á noite, a filha do dr.Ozéas.
Todos dormiam sonhando com a festa nupcial da filha do dr. Ozéas , (-) aquela incrível situação durou alguns belos anos, aquele verniz da nossa juventude encontrava na filha do doutor ,momentos para “papos” de imaculada pureza em busca daquele mistério que ficou inalterado ,pois nenhum de nós, viu de corpo inteiro a filha do doutor Ozéas...talvez o Lico tenha visto , mas não nos contou !

p.s. Quando , pela primeira vez eu vi a foto da Ana Paula Arósio, eu pensei comigo...É a filha do Dr. Ozéas .?!?!(-)





quinta-feira, 1 de outubro de 2009

DEPOIMENTO ( 6 ) Visões de Estrada *

Hallai*Hallai Necão Cast*Paulinho Zam* Mr. Robson


                   * A magía do interior gaúcho nas visões do "Vivendo a Vida de Lee"*

                                                             * Visões de Estrada *
                                                                         Vivendología de Lee*

ENTREVISTADO : NECÃO CASTILHOS
PARTICIPAM
NANDA (ANANDA SOUZA MORAIS) PUBLICIDADE
LUCAS (ALBERTO LUCAS RIBEIRO)JORNALISTA
FANNI (STEFFANI DIAS) (LAY OUT PRODUÇÕES)
MARCO SILVEIRA (ESTUDANTE UFRGS)


CONCERTO Nº 4 / CAXIAS DO SUL/MARÇO/1976
CONCERTO Nº 5 / PASSO FUNDO /AGOSTO/1976
CONCERTO N° 6 / CAXIAS DO SUL/SET/1976
CONCERTO Nº 7 / SANTA MARIA /SET /1976
CONCERTO Nº 8 / PELOTAS /OUT/1976


“Pelo grande vale um belo rastro ele deixou /
Cavalgando á noite as estrelas namorou”
(hallai hallai/ 1976)
Vivendo a Vida de Lee* "on the sky" pelo interior gaúcho*
“é hora de partir , leva o que precisares,
o que pensas que perdurará /
o que quer que desejes conservar,agarra-o depressa/
além está o teu órfão com uma arma /
gritando como um fogo ao sol /
cuidado, já vêm aí os santos/
e está tudo acabado, BABY BLUE” .

                       Dylan*



esquerda p*direita > Sergio(Hallai) Robson (Hallai) Paulinho(Hallai)Necão(Hallai)
em baixo > Fernando Pesão (Mantra) Inacinho(Mantra) João Antonio (Inconsciente Coletivo)
Zé Flávio(Mantra) Beto Roncaferro(Produtor) Tv. Caxias
Todos cantando a música Cowboy*
Lucas / - Como foi a escolha dos músicos para estas viagens ao interior ?


Necão / - Te falo o seguinte, pra mim, os artistas. músicos e todos que trabalhavam na montagem e divulgação dos Concertos, tanto na capital e no interior , já estava formado na cabeça do Julio muito antes das viagens propriamente ditas. O - Vivendo a Vida de Lee - , o time foi este, com raríssimas exeções, ALMONDEGAS, HERMES AQUINO, FERNANDO RIBEIRO,INCOSCIENTE COLETIVO,MANTRA, HALLAI HALLAI, GILBERTO TRAVI E O CÁLCULO QUATRO,A EMPRESA COTEMPO( EGON) O ANELI, O JÚLIO E O BENDER DA LEE... estes eram os músicos que rolavam diariámente no programa do Mr.Lee (Julio Furst / e depois entraram na programação da Rádio Cotinental.
Estas eram as pessoas que estavam sempre na Continental, sempre atentas , procurando sempre dar idéias gravar músicas com o Anele, falar com o Júlio, participar ao “vivo”
quando o “Mr. Lee estava no ar, trocar “figurinhas”, incentivar os lances, trocar energías, e falar sobre música.
Para saber quem realmente fez o “Vivendo a Vida de Lee”basta verificar quem rodava na super quente naqueles tempos (75/76), estes foram os músicos batalhadores que
imprimiram com um “puta astral” e deixaram o nome escrito nas paredes de Porto Alegre através do “VIVENDO A VIDA DE LEE” (1975/1976).


Lucas / - Entendi , é a mesma coisa que dizer que os Beatles participaram de “Woodstok”, mas existe pelo que se lê por aí uma certa confusão. Pois muita gente pensa que “Os Beatles “ participaram do “Woodstook” .


Necão / - Quem vestiu os trajes Lee de “corpo e alma”foram os que eu citei (risos)


Nanda /- A gente tem uma certa curiosidade do perfil desse “povo” todo, como tu conceituas ?
Necão / - É difícil pintar este quadro (hoje),a significação de tudo na época passou desapercebida, hoje eu creio que foi o simbolismo que criou o clima necessário para que tudo aquilo fosse possível. O “ Vivendo a Vida” não subverteu ordem alguma com sua arte , ela também não se desvendou a qualquer um, ela possuia um aspecto harmônico que se revelava nos Concertos e no Rádio. Todos alí
criaram sua própria realidade e o Júlio harmonizou tudo aquilo dentro de uma linguagem pessoal com influência direta do patrocinador.


Nanda / -Poderia dizer que foi mais no campo experimental do que teórico ?
Necão / - Sem dúvida , vamos dizer assim, prudentemente pintando pequenos buquês de flores em vasos de porcelana.
Nanda / - Necão, agora fala destes personagens ?


Necão / - Os ALMÔNDEGAS , já tinham vida própria , e possuíam uma receita acadêmica nutrido pelo Fogaça, que era professor do famoso IPV (cursinho pré vestibular) que na época era o “grande lance “. Eu não lembro muito bem, mas eu acho que os integrantes dos ALMÔNDEGAS , nunca viajaram de ônibus junto com os músicos do “Vivendo”.
Êles já tinham agenda lotada , eu acho que foi isso.
O kleiton era o mais acessível , o restante me parece que vivia dentro de uma pátria mental exclusiva.
HERMES AQUINO , sempre foi artista, amizade estreita, diretamente ligado na música,muito amigo do Anele,sabia utilizar muito bem as experiências visionárias musicais, pródigo em seus segredos, a fixidez á certeza que representava muito no “Vivendo”. A música “Macho Picho”pra mim foi a obra que marcou a estética do movimento.
O hallai sempre teve bom relacionamento com o Hermes, inclusive no Concerto em Passo Fundo, o Hermes chamou o hallai no palco e juntos cantamos “My sweet Lord”, foi um grande momento tipo assim “SOM 4”; até que ficou presença aqueles “ baita magro” fazendo vocal.
FERNANDO RIBEIRO,emoção, que em nós do hallai despertava ,tinha composições de complexidade crescente,alguns aspectos da vida, vivia, como se fossem os últimos, o hallai hallai teve um grande amigo em Fernando , ele muitas vezes esteve em nossos ensaios, e foi num desses,que nos mostrou a música “Quando Viajar pro Norte” ,que o Paulinho fez um extraordinário arranjo para 4 vozes e que o grupo deu uma fantástica intrepretação. Foi em Pelotas que fizemos uma surpresa a Fernando, e pela primeira vez cantamos esta canção... o Fernando estava atrás das cortinas e nós mandamos, no final abrimos em 4 vozes “Pare você já foi longe demais”...longe demais...”
o Fernando gritou antes dos aplausos...bravo...bravo...
inesquecível. Até hoje me emociona....


( pausa , pintou uma forte saudade )


Necão / - Quero deixar registrado também o nome do grande músico que fazia parte da banda do Fernando,TONECO um gentlemann em todos os sentidos, e que namorava uma super gata (será que ele casou com ela?)
O AYRES , era outro músico da banda , figura erudita,muito pouco “papo” ,mas gente boa.


Lucas / - Que força tudo isso , sinto uma coisa assim possante e muito forte, o Júlio teve muita sorte em reunir tudo isso naqueles tempos, mas Necão continua...assim a coisa toda se revela de forma diferente e interessante.


Necão / - INCONSCIENTE COLETIVO, um estilo assim,24 de outubro (street), aqueles 03 jovens bonitos, com a ÂNGINHA dando um toque cheio de sensações de artistas despreocupados que descobrem de repente o mundo, levando algumas “ leis tradicionais” e outras para romper através de suas músicas.
O JOÃO ANTÔNIO , sempre demostrou um interesse genuíno pela música ,sempre preocupado com as afinações dos vocais ,era o mais interessado em que tudo desse certo. O XANDI, no estilo“Bob Dylan”dedicava toda atenção a Ânginha...nem poderia ser diferente, os dois criaram um universo próprio um “lago azul” como Lee jeans. (risos)
Nas apresentações sempre aquele som folk , com muita pureza e beleza...realmente eles eram “Fadas Douradas”.
A apresentação em Pelotas no Theatro Guarany, pra mim foi marcante ...”Abra a janela e respire o novo ar da manhã”...o” Inconsciente” devia ter seguido a estrada, o folk depois estourou no País.

da esquerda p/ direita –Necão (Hallai)Ângela(Incosciente), João Antonio (Inconsciente)& vocalista do Travi (?), esta foto foi em Passo Fundo estávamos preparando um grande vocal que devería ter sido gravado.(1976) Hallai + Inconsciente + Cálculo 4 .


Fanni / - Na verdade eu sinto, hoje, que existia um universo em construção no “Vivendo” fiel a si mesmo.
Marco / - Sim , mas eu acho que esta estrutura mental era unicamente entre o Julio e os músicos , nada mais.

Lucas / - É difícil traduzir com um olhar de hoje, tudo que rolou, eu li certas afirmações no livro da Continental de certas pessoas que não entenderam nada do movimento,pois fizeram afirmações muito simplistas de tudo que houve. Gente citada, que na verdade não viveu nada .


Nanda / - Mas Necão, vamos em frente, nos fala do Mantra.


Necão / - MANTRA , Uma Banda pouco preocupada com a simultaneidade entre espaço e tempo , já naquela época,longos solos do ZÉ FLÁVIO , músico de muito talento para
aqueles dias, sempre alegre, mas levava uma inquietação.
PESÃO , “Batera”, seletivo, ele e o Bebeto Mohr eram os melhores , tinham um capricho total com seu instrumento,aquela “cara” de inglês , Garfunkel, nunca falava de brincadeira era tudo negócio, nada pessoal, este era o Pé.
O INACINHO”, garoto feliz, gente especial, alto astral a gente se relacionava muito bem. O Mantra tinha uma gama inteira de composições derivadas da mocidade que viviam
naqueles momentos mágicos. Muito Bom !


Nanda- Gilberto Travi e o Cálculo Quatro ?

Necão - O TRAVI E O CÁLCULO QUATRO , o GILBERTO
tinha “ tweeter” na voz, eu acho que foi a melhor fase da vida dele, ele deve lembrar com saudade desses tempos . Eles faziam assim , uma música “modern stylle” sob as influências do cotidiano, era a parte dos Concertos da distração do bom humor, me lembro que em Passo Fundo(vê só quanto coisa aconteceu em passo Fundo) o irmão do Gilberto ,que era muito parecido com o Belchior fez um lance genial, o Júlio no meio do Concerto , chegou no micro e tascou:- Estamos recebendo uma visita de surpresa.
Belchior veio especialmente a Passo Fundo para cantar no“Vivendo a Vida de Lee”, foi aquele auê, (Belchior nesta época era o grande ídolo que estava surgindo no Brasil .
Entra no palco o irmão do Gilberto, igual ao Belchior e o Anele tasca a gravação :- Eu sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco... a luz baixou e era o próprio BELCHIOR , numa apresentação genial do irmão do Gilberto. O público vibrou como se fosse realmente o Belchior. A Banda e o Gilberto tinham uma singularidade legítima .


Nanda / - Agora o Hallai Hallai, sem dúvida ?


Lucas / - Com a cabeça fria que é bom, afinal já passaram décadas ?


Marco / - E que seja antes da primeira viagem do “Vivendo A Vida de Lee , que dizem que a gente nunca esquece?


Fanni / - Para o quadro ficar completo , nada mais justo.


Necão / - HALLAI , PAULINHO , NECÃO , ROBSON & SERGIO , na verdade um grupo de vocal e viola que nasceu das estradas secundárias da grande Poro Alegre, apesar dos primeiros ensaios terem sido feitos no bairro da Glória .Tocávamos Crosby, Stills & Nasch, nas noites quentes de uma Canoas cheia de bandas e bons músicos, muito antes do “Vivendo”, depois do Rio,depois dos bailes, depois das brigas, depois dos bailes das debutantes , depois das namoradas, descobrimos clima favorável na atmosfera íntima da vida familiar, animados por nossos próprios violões, cuja poesia soubemos extrair.
Paulinho , irmão de fé , desde os tempos da adolescência, até hoje estamos juntos na realidade , nos sonhos e nas canções. Robson o enigmático, mas com muito talento, Sérgio “eu sou nuvem passageira”, que se perdeu por aí. Na verdade este tempo foi um dos melhores vividos pelo Hallai, éramos jovens apaixonados pela vida e pelas circunstâncias. Quando entramos naquele ônibus para a primeira viagem, estávamos inteiro dentro do movimento, acreditávamos em tudo que falavam nos bastidores, éramos infantes do primeiro ônibus “Muitas aventuras seu coração levou/ Mas casou com a mocinha que com um beijo o derrubou”. Este era o Hallai Hallai início de tudo.


Nanda / - Hei , agora o Júlio Furst ?


Necão / - O Júlio é fácil, era o próprio dinamite aceso com o pavio curto, nunca vi o Cowboy triste ou sentado, o dinamismo do Júlio contagiava a todos, não tinha tempo ruim; de natureza artística, sabia tirar partido genial dela.
Sempre mostrou-se sensível ,quando apareciam problemas com o Hallai ; O Júlio sempre teve um pé no “on the road “e outro no” Gran Monde” , ás vezes no asfalto/ ás vezes no campo, não dava colher pra som ruim, e nunca tocou o que não quis, não separava, não discriminava quando o talento falava mais alto . Foi responsável direto pelo sucesso do movimento, nunca pediu “penico” pra ninguém . Cowboy durão. Não permitiu que qualquer ideologia comprometesse a espontâneidade do movimento, a serviço do qual colocou toda energia.


Nanda / - Pra não deixar ninguém de fora dos citados ,falta o Egon da Cotempo, o Bender da Lee e o Anele .


Necão / - EGON DA EGER , era o paizão da turma sempre solícito e educado ,e o BENDER “Bom Vivant”, alto astral,sabe aqueles cowboys do Texas, que estão a fim de festa.
Este era o Bender. O” ANELE O HOMEM DAS ESTAGIÁRIAS”simplesmente uma figura de histórias em quadrinhos que completava a roda do VIVENDO A VIDA DE LEE. Gente , já
ía me esquecendo de um “figuraço” o BETO RONCAFERRO que fazia parte da produção e também dava seus toques.


Lucas / - Pelo teu relato, posso identificar a formação de uma “escola” que ,quer queira ,quer não queira , deixou subsídios históricos que são sempre valorizados por novas cabeças que buscam a reconstituição da nossa “geléia geral musical”, que pra mim, que sempre gostei dos músicos de Porto Alegre é muito importante.


Fanni / - Eu creio que o “Vivendo”, não deixou assim influências , tendências urbanas musicais , mas deixou valores empíricos com métodos simples, o rádio , a música local abrindo espaço , com uma proposta nova para a época, e que hoje o “Buzina” ampliou , com métodos mais concretos e , pelo que sinto de longa duração. Isso tudo quer dizer que a colheita esta sendo feita hoje , o conceito é o mesmo , mas com maior abertura e consciência.
A “Escola do Vivendo”, deixou uma corrente com seus elos abertos. (palmas de todos) klap, klap, klap ...


Nanda / - Necão, conte agora , lances das viagens ao interior ?


Necão / - As viagens foram todas iguais, muito som dentro do ônibus, altos papos, encontros, vocais da hora , prazer eu sou fulano, me lembro que um jovenzinho estava sentado no primeiro banco da frente, eu perguntei quem era ? Eu sou Kalique , respondeu aquele jovem assustado,estou agora fazendo baixo no “Incosciente Coletivo”, sentei ali perto e travamos altos papos sobre música, O Kalique desde aqueles tempos pensava seriamente sobre música,sempre interessado no vocal do Hallai, perguntava muito sobre a “cama” de vocal , como é que nós montávamos
tudo aquilo, depois o tempo provou o talento do kalique na Ginga e grupo Canto Livre .A grande noite pra mim foi em Pelotas,no Theatro Guarani, foi tudo perfeito, antes a Rádio da Universidade fez várias entrevistas com todos , a noite foi de gala , todos os músicos se deram bem, as meninas lindas de Pelotas apareceram e foi uma festa de beleza, na apresentação do Hallai. Preparamos uns” sons” antes do grupo entrar no palco (helicóptero, máquinas, vozes) e o Dominguinhos Martins fez uma introdução pré gravada em estúdio, preparando o clima todo, entramos depois daquela “revolução” e começamos com a música “Natural” que falava de natureza , rios , montanhas, céus, águas, sobre uma cama de viola e vocal ...foi demais ! Me lembro também que o Hermes apresentou pela primeira vez nos Concertos uma música dos Beatles ,”Fool On a Hill “, foi com certeza em Pelotas. O Júlio deu uma “bronca” no Hallai :Pô caras , dois apresentadores, “qualé(-) ...o cowboy aqui sou eu !
Referiindo-se aquela pré gravação do Dominguinhos, aí eu dei uma pá de explicações pro “velho Cowboy”.
- É só um lance, aquela coisa da máquina sendo vencida pela natureza; não sei não ,xará , disse o “cowboy”, mas a coisa toda voltou pra paz ...mas nunca mais colocamos aquilo no ar!!!!! Antes da caravana chegar em Pelotas, O Bayar , que fazia parte da produção, mandou parar o Ônibus, e disse em bom som:- Seguinte, estamos entrando em Pelotas, aqui nesta cidade tem muito militar, se algum de vocês tem alguma coisa que vá contra as convenções sociais, coloquem fora agora...só deu neguinho abrindo a janela e mandando toda aquela “lenha” fora. Coloquei até comprimido pra dor, fora ( lá se foi as minhas cibalenas etc...(risos)
Em Caxias do Sul, aquelas italianas “modelos” de olhos azuis, a gente se achava o máximo, ainda mais com aquele “puta vocal”. Em todos os finais altas jantas, comemorações,abraços,promessas de altas gravações com o Anele, uma festa só ! Na volta de Pelotas tava frio pra caramba, não me esqueço, o Bayar sentou do meu lado tremendo de frio, reparti o cobertor com ele, nunca senti tanto frio. Mas tudo era regado com o sangue da juventude que corria em nossas veias.
Caras, nunca tivemos problemas de espécie alguma , nem em Hotéis,viajens,palco,e nos relacionamentos entre músicos. Existiam alguns “egos”, mas tudo dentro da normalidade. O Hermes com aquela calça de listras, uma vez perguntei a ele , o porquê daquelas calça, ele me respondeu :- Necão, a criançada gosta , lembra os super heróis ! Demais ...demais...! Em Passo Fundo antes de começar o Concerto, estava eu, Paulinho e o Júlio , observando os movimentos...o Júlio , lasca ;
-Vocês vão abrir o show hoje...o Paulinho , tasca:sem essa Cowboy, começar com vocal de cara, vai tirar toda a magia , bota uma voz solo de violão, começa devagar.
O Júlio, responde : - Sem essa devagar, hoje tem que ser no pau, Passo Fundo é dedo destroncado, temos que meter bala ... Caras , a coisa tava ficando preta ; Falei com Paulinho e disse , é mais uma experiência , não podemos correr dessa...ainda mais pro Júlio...o Paulinho não aceitava... pedimos um whiski na ponta do Bar, e as coisas começaram a fluir...cheguei pro Júlio e disse....Cowboy ,manda bala, coloque o Hallai , vamos entrar a mil, cinco minutos só de violas...e depois mandamos vocal , começamos com uma música chamada “Aguias”, que tinha uma letra feérica e um vocal monstro, deu tudo certo !!!!
Todas as cidades do interior que passamos tinha lá, seu lado pessoal e subjetivo, o “Vivendo” passava assim como uma fábula, interferindo por alguns momentos naquelas rotinas do preconceito , do amor e da saudade, por alguns instantes...mas sempre com uma hospitalidade suave e harmoniosa... O “Vivendo” foi uma coisa assim de independência, de conquista, é claro que teve outras causas de merchandising, dinheiro e patrocínio, mas na sua essência o sagrado se manteve...os músicos com valor em si !
Eu pensava naqueles tempos que tudo levaria uma eternidade para se acabar, e que nós nunca sairíamos das terras do “Vivendo”... á noite , naquele ar seco do interior, as estrelas viajavam dentro do ônibus...nada poderia mudar aquilo...living the life of Lee...



esquerda p*direita em cima> Kledir(Almondegas) Inacinho(Mantra) Zé Flávio(Mantra) Robson (Hallai)
Paulinho (Hallai) Necão (Hallai)
em baixo > Zézinho Athanásio - Kiko (Almôndegas) Sergio(Hallai) Fernando Pesão (Mantra) João Antônio (Inconsciente Coletivo)
Beto Roncaferro (Produtor Lee)
Profissionais, músicos e artistas foram estes que começaram as viagens pelo interior do Rio Grande do Sul.
Todos escolhidos por JÚLIO FURST.
ALMÔNDEGAS / HERMES AQUINO /FERNANDO RIBEIRO / HALLAI HALLAI / INCONSCIENTE COLETIVO / MANTRA /GILBERTO TRAVI E O CÁLCULO 4 /
Profissionais: Bender (Lee),
Bayar(studio 2)
Egon (Cotempo) ,
Beto Roncaferro (Continental)
Missiê Anele (Continental)
Mr. Lee *

É AKI XARÁ , O SOM DE LEE , GRAVADO NOS ESTÚDIOS
DA CONTINENTAL, COM RODAGEM MÁXIMA “.

                                                                                         ( Júlio Furst)




                                                                                         Continua...

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O QUARTO DO LICO*



                                                          O QUARTO DO LICO*
                                                                                                     by* Necão


Foi assim,... Era uma vez um rapaz que morava numa cidadezinha que tinha muita cerração, no inverno tudo era muito frio, e no verão tudo muito quente.
O Lico vinha de uma linhagem familiar muito querida na cidade, seu pai era político, e suas irmãs muito belas.
Tudo girava em torno disso, e a vida corria sorridente para todos.


Mas o Lico era uma pessoa que dava vários sinais de vida,Tinha tempo para a burguesia e, também tempo para o “poor side of town”, que era o meu caso.

O pessoal que morava na “faixa” era considerado elite, a turma lá de cima era o contrário “povão”.

Eu, apesar de morar na faixa, gostava muito da turma lá de cima, sempre tive esta tendência “poor boy”, influência talvez de um tempo familiar muito difícil e também por toques de meu avô que era comunista de plantar batatas no terreiro, e de ler a famosa “Tribuna Comunista”.

O Lico, num daqueles sinais de vida, em que ele era mais verdadeiro, certo dia, se aproximou de nossa turma para aprender tocar violão.
E, como sempre, eu era o mais acessível, ele chegou com aquela alegria , e ali pela música, conheci uma figura fantástica, cheia de sonhos e com um futuro para desfrutar.





                                                                                  Grande Otelo*
Corria a década de sessenta, e o cinema brasileiro estava em efervescência; filmes do Glauber Rocha (Barravento/ Deus e o Diabo na Terra do Sol... Assalto ao Trem Pagador do Roberto Farias... O Bandido da Luz Vermelha do Rogério Sganzerla... Os Cafajestes do Ruy Guerra... também já se falava em Roman Polanski, aquele livro do Morris West “Sandálias do Pescador” era a grande polêmica, pois se referia aos porões do Vaticano, história da ascensão de um Papa negro. Os Beatles e os Stones já faziam barulho,gente de teatro falava muito em Ionesco, a “Legalidade” perpetuava seus hinos, o livro do Capote “A Sangue Frio”, dava um novo norte aos jornalistas escritores, a música “Chega de Saudade” do João Gilberto tocava muito no rádio, Fidel Castro já estava no poder em Cuba, a “Doce Vida” do Fellini, passava no Cine Imperial, a Marilyn Monroe era a musa, e o Cândido Portinari pintava a papoula da lua das mulatas.


Esta era a cena, o “quantum, sem lenço e sem documento” o crescente da lua nova partindo para um carnaval no quarto do Lico.
A elite da cidade frequentava o quarto do Lico, era uma coisa assim “privê”, só para amigos que se “becavam” bem.
O quarto do Lico ficava nos fundos da casa dos pais, era uma espécie de “bunker”, ali só entrava quem realmente tivesse alguma condição financeira ou artística.



A década em que tudo começou*

A primeira vez que adentrei naquele quarto “surrealista”,tudo que eu tinha visto em matéria de estética foi pro saco.
Todo mundo falava ao mesmo tempo, as legendas se misturavam, não sobrava nem fuligem de incêndio, todos falavam de tudo, das meninas da tabacaria, das “loras” do “Meu Cantinho”, das gurias “lá de cima”, das balas de hortelã,do “escurinho do Cine Palácio”, dos homens de “chifre” do bolão do Aliança, das invocações dos “guris da Vila Osório, do cinema francês, do Alain Delon, da Brigitte Bardot e também da nova guria da fazenda que prometia futuros papos para noites quentes”.


Aquele quarto não servia para túmulo de santo, os sapatos sempre estavam em cima do guarda roupa, as roupas sempre fora do armário, o criado mudo falava, garrafas de fogo paulista e também aquelas garrafas de vinho frugal, onde todos bebiam para preparar a noite, naquela cidade sesssentista sob a música dos “Indomáveis”, que rachava as paredes do Clube do Comércio.
Assim era o Lico, um garoto feliz, que tinha uma galera de ouro!


Um texto escrito a máquina, num papel de folha de almaço me chamou atenção, na primeira vez que estive lá, peguei estes escritos, que guardo até hoje, e que resume e define aqueles tempos da primeira mocidade de todos aqueles guris, que sonhavam em namorar as meninas, mas bonitas da cidade.
Este é o texto que estava colado com durex na porta do quarto do Lico no lado de dentro. (anos sessenta)
“Depois de ter estudado o amor nos livros dos que o analisam, e na pele dos que o fazem, depois de ter interrogado mulheres instintivas e mulheres cerebrais, depois de ter examinado muitos e muitos casos, lido muitíssimas histórias, ouvido respostas de competentes, visto gráficos dos aparelhos que registram as curvas do pensamento, os imprevistos da vontade, as oscilações do sentimento, depois de ter escutado aqueles que resolvem por meio de química os mistérios do amor ,e aqueles que o explicam com a eletricidade, depois de ter dado atenção aos homens frios que o restringem na fórmula de uma equação e os exaltados que o dilatam pelas rimas de um poema, eu começo a pensar que, para compreender alguma coisa do amor, se eu tivesse que adotar um método, adotaria o teu.
- O meu?
- É o método mais racional, mais sério, mais científico, mais positivo.
Sem abrir os olhos, Liana perguntou:
-Mas que método é este?
O juiz curvou-se mais sobre o rosto dela e respondeu:
- Desfolhar malmequeres.
- Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer.
Paris, setembro de 1929.

Este era o Lico, com sua ânsia de viver, de ter amigos, de buscar a arte, de não ter preconceitos, de frequentar todos os lugares, de conhecer gente interessante, de curtir os anos sessenta como se fossem seus últimos tempos na terra. O Lico sempre comandou tudo, com aquele sorriso de “Colégio São José”, adquirido do Irmão Norberto, grande professor, responsável pela hora cívica dos sábados de manhã.

A eternidade naquele quarto tinha passaporte para sempre.
Aquele “intermezzo”, de sair da casa da namorada e ir para o quarto do Lico, para preparar o espírito para cair na noite era algo extraordinário, era a liberdade de pintar e bordar, com tamanha força que não tinha espaço para o hermético e o bolorento era tudo entretenimento.

A primeira “Casa de Cultura”, que eu frequentei, foi o “Quarto do Lico”. Certas noites eram tão afiadas que algumas luzes sobre valores intrínsecos seguiam itinerários sem censura. Todos ali, esparramados em almofadas de
pena de galinha, com os braços falando pela boca, tal era o entusiasmo de cada encontro.

O Lico sempre roubou a cena, agia como um veterano ator, mesmo quando estava sendo sincero. Todos curiosos, olhavam para aquele maravilhoso espetáculo, com o Lico comandando aquelas trepidações dos anos sessenta.
Existia um duplo sentido no Lico, ele, com aquela ironia de beira de mar, tirava “sarro” de tudo, achavam todos aqueles caras de uma “caretice” de general, mas curtia tudo aquilo sempre alegre, atirando no vento todas aquelas palavras que engravidavam na boca de outras pessoas.

O menor e o grande separados por centímetros, tudo se misturava, nem café nem torta de maçã, era o Lico. “bola pra frente a qualquer custo”; chegavam certas horas que todos ficavam sedentos, rebeldes e impertinentes e começavam a discutir sobre qualquer coisa ridícula.

Aí, o Lico introduzia um fim, naquela reunião de fim de semana, e todos iam para o Clube Aliança, continuar aqueles papos intermináveis e nenhum de nós saía ferido.
Juvenis, eis o que éramos.


p.s. estes escritos vão para todo pessoal que curtiu aquelas noites feéricas no “quarto do Lico”, e também para as musas inspiradoras: Nena, Maria Luiza, Marne, Ruth, Conceição,Maria Rita,Marilena,Solange,Leila,Beth,Nena do Lico,Gessy,(da Fazenda), Nilza Vera, Sandra, Mariza, Maria da Graça, Maria Aparecida, Lorena, Auda, Verinha, Carmem, Vera (filha da dona Alba), Antonieta (sincachambor), Shirlei (da Malta).
p.s. em especial a minha querida negra Iara, que morava na frente da casa do Lico, com o qual me casei em 1971....
Década de “60”, isto aconteceu!

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Depoimento ( 5 )

 hallai*hallai
VIVENDOLOGÍA DE LEE                        
Entrevistado: Necão Castilhos
Participam : Steffani Dias (fanni)
Lucas Ribeiro
Ananda Souza Morais (nanda)
Marco Silveira
Concerto n°3
Data 30*de abril* 1° de maio*1976
Local *Teatro Leopoldina * Porto Alegre*
                                                   
Sérgio*Robson*Paulinho*Necão

P/ Lucas – Como foi o dia seguinte (day after) do concerto do “Araújo”?
R/ Necão – Foi o seguinte assim...todo mundo que a gente encontrava na Rádio, nos saudava dizendo em” alto e bom som , HALLAI HALLAI” !
Era uma segunda feira e todo mundo estava na “Contí”, o Júlio estava mais falante do que nunca, mil planos , duas mil emoções , e o programa com a famosa vinheta da Lee em rodagem máxima ...Living The live of Lee... aquela vinheta cortava os céus da noite de Porto Alegre.

P/ Lucas – Nada pertence a ninguém mesmo, veja só, aquilo era no momento o verdadeiro, o novo ,o sorvete da hora ,o futuro já estava acontecendo, a vinheta era o hino dos músicos?

R/ Necão – Não tenho dúvida, a dualidade não tinha vez naquela segunda feira na “Continental”... era um lance inglês...ou um lance americano ...não sei ...mas a gente cantava em português ...um barato!

P/ Nanda – E o grupo como administrou tudo isso?

R/ Necão – No maior entusiasamo, o Sidão e o Paulinho estavam em festa ... apesar de todo o desgaste de muitos ensaios (todos dias)... tínhamos vencido aquelas barreiras todas e o grupo ficou mais forte. Guardei todos os recortes de jornais e segui a vida de Lee. (risos)

P/ Fanni – O terceiro Concerto, quanto tempo depois aconteceu , e o que vocês ficaram fazendo neste espaço?

R/ Necão – Custou muito a acontecer o” 3º Vivendo”.
Este espaço longo,(5 meses), dava uma certa aflição a todos, até os ensaios deixavam de acontecer, dava uma ressaca... e cada um vivia a vida de Lee a sua maneira, eu, Paulinho, íamos todas as noites na Continental, na hora do programa do Mr. Lee...depois ficávamos batendo papo com o Júlio, na subida da General...era cowboy pra cá...cowboy pra lá... cavalgávamos por todas as pradarías do velho oeste em busca da mocinha, sonhos e mais sonhos derramados na General Câmara... mas aí aconteceu a primeira ruptura no Hallai, faltando 2 meses para o concerto nº 3 , o Sidão, num belo dia, me disse, que não iría mais continuar no grupo. .Motivos particulares, viagens , certas incompatibilidades/ ... quer dizer, toda aquela estética que já vinha formada do Rio de Janeiro + Rodas de Som + Vivendo a Vida de Lee...estava para terminar, como de fato terminou.

P/ Lucas – Necão, que situação para um grupo vocal se realinhar de novo ?

Necão – Mas não era só isso, todo sistema do Hallai tinha sido montado para 3 violões e três vozes, mas o mais importante era o valor intrínsico, eu e o Sid, irmãos...o Paulinho, amigo da pré-adolescência... é difícil você formar alguma coisa nestes moldes...a mesma cidade ...o mesmo colégio...toda aquela visão estética que estava ao teu redor nos anos 60 e 70, e que aflorava em todos nós...tudo aquilo era grandioso,... de uma expressividade verdadeira.

P/ Lucas – É a história dos” Paralamas”, amigos de infância que sonhavam em fazer uma banda e continuam até hoje ...isto é raro ....eu entendo... as Bandas dos anos sessenta e setenta levavam isso até as últimas consequências, até pelas dificuldades que todas tinham em formar uma banda...era uma coisa mais ou menos assim...um pedaço de madeira tratado artisticamente transforma-se numa obra de arte; tratado a machado e rusticamente, torna-se uma racha de lenha.... , para tudo isso , só com amigos da mesma zona, dos mesmos papos, da mesma cidade, toda e qualquer dúvida , todos estavam próximos, no máximo era atravessar a rua e se encontrar.
Falando em” Paralamas” , tem uma música do Chuck Berry que diz o seguinte : -“ O cadillac vai correndo a 150 por hora / Paralama colado em paralama/ Lado a lado/ Mabellene por que você não é sincera? / ...é o caso necão...vocês tiveram que reduzir a velocidade?

R/ Necão – Me lembro que era um sábado, fui na casa do Paulinho e comuniquei a ele das novidades, concerto no “Teatro Leopoldina”, e que o Sidão não estava mais na banda... nós ficamos em silêncio, coisa rara entre nós (até hoje)...foi bem assim, peguei o violão e falei:- A saída é uma nova música , Paulinho pegou o” velho xerife”(violão), e juntos fizemos a música “cowboy”... esta canção trouxe com ela uma vibração que levava tudo a uma unidade de equilíbrio ...( -) engraçado , é que em situações que se repetiram depois , uma nova canção colocava tudo em seus devidos lugares... a música sempre nos salvou em situações de conflitos que foram muitos, no decorrer das estradas do Hallai.

P/ Fanni- Necão, como foi feita a segunda formação do Hallai... onde vocês encontraram esta terceira pessoa para continuar o Hallai , visto a deficiência de pessoas para agrupar num vocal ?

R/ Necão – No início foi complicado, me lembro que o Paulo chamou o Lauro , que já tinha tocado com ele, mas a coisa não rolou, não ficou Hallai, as vozes não afinaram, timbres diferentes, outra cabeça, enfim ...continuamos a ensaiar sem a terceira pessôa... depois o Paulinho me disse que conhecia um músico, que também já tinha tocado com ele...um rolo ... até que encontramos o Robson , que escutava a Continental, Mr. Lee, e gostava muito do Hallai Hallai...foi perfeito... o Mr. Robson era a pessoa que tinha nascido para ser um Hallai... ensaiamos , passamos todas as músicas, inclusive o “ Cowboy “ que tínhamos feito naquele momento dramático... e, que gravamos em seguida no estúdio da Continental , com o “missiê Anele. A coisa toda ficou pronta... e depois de algumas digressões... fizemos apresentação no Music Puc... em que o Julio foi o intermediário e nos colocou como novidade do” Mr. Lee In Concert “, que por sinal foi uma grande apresentação , onde , pela primeira vez tocamos a canção , que tinha o nome de “Pedro e Sara”,... a banda estava pronta para o terceiro “Vivendo a Vida de Lee” , no magnífico ( como dizia o Júlio ) Teatro Leoplodina.

P/ Marco – Mas foram( 4 )que se apresentaram no “Leopoldina “ ?

R/ Necão - Exatamente, o Sérgio , primo do Robson entrou na banda...Paulinho e Robson , achavam que faltava um baixo no Hallai... eu como purista do folk,
achava que não... mas diante de tanta argumentação... dei um sorriso de cerâmica... e disse :- Que venga el toro! ... e assim o Sérgio entrou na banda... foi legal... o Sérgio tocava violão e começou no Hallai, a aprender tocar baixo... o Paulinho e o Robson deram as aulas, e como o Sérgio tinha mão de baixista, rolou um belo baixo !

P/ Lucas – Mas... Necão, mudou tudo?

R/ Necão – Na verdade houve de minha parte uma ambiguidade...para explicar isto...vocês lembram quando os Beatles lançaram a música “Revolution”, pois bem , no Lp`, eles cantavam “ You can count me in” (/ Conte comigo para fazer a revolução/)...na versão do compacto, eles cantaram “ You can count me out “ ( / Não conte comigo / )... O Hallai do “Araújo”, quem viu sabe do que eu estou falando...as raízes....tipo “Pink floyd “ com Sid Barry... ou o “Gênesis “com o Peter Gabriel... não existia mais... não estou falando em qualidade... mas em matéria de estética e do lance conceitual, o Hallai perdeu muito... mas enfim já estávamos por uma beirada, e o 3º Concerto da Lee , já estava nos cartazes da rua.

P/ Fanni – Necão , vamos lá ...é o Hallai Hallai no palco do” Leopoldina” ?

R/ Necão – O concerto do “Mr. Lee” , no Teatro Leopoldina foi um acontecimento. Perguntavam, que tipo de evento é esse capaz de agitar toda cidade de uma vez só?
A contracultura, um novo Sgt. Peppers ,a Tropicália Gaúcha,um novo ritmo,ou um encontro de namoradinhos? Que nada véios, era “Mr. Lee in Concert”... a Terra do Sem Fim !!!!!!O Júlio dividiu o concerto em dois dias . O Hallai ficou no dia 1º de maio sempre predestinado dia do Trabalho.Agito na cidade,sindicatos...blá...bla´...blá...blá... E o Hallai , com 4 vozes,violões e baixo. ( A la pucha tchê) (risos)... ...1976...sábado....Teatro Leopoldina...
1ª de maio... Esta noite foi do BIZARRO, HALLAI, HERMES AQUINO, MANTRA, STATUS 4... fomos o penúltimo a ser chamado pelo Júlio (Mr. Lee), quem encerrou foi o Hermes Aquino. Preparamos as canções que estavam rodando na Continental, e incrementamos com novas canções...fiz uma canção, para este evento, que tinha o nome de” Águias”, outra canção “Natural” que falava de um lago virgem chamado Hallai – Hallai, o Paulinho fez uma canção instrumental chamada “ Chuvas”, um concerto para 3 violões...demais.!!!! O público em silêncio total...no final ...bis...aplausos... encerramos com “Cowboy“... em que o ”bem”, era representado pelo “copo de leite”, e o” mal” pelo” whisky”... o Apache e o Velho Xerife, em igualdade de condições...sem discriminação... tocamos América, Falsos Deuses, Vento Minuano, o Tempo Passa, O Sul ,Pedro e Sara...uma festa de vocal / viola e baixo ... foi demais...naquela noite a marca da civilização Hallai, ficou marcada, no palco mágico e histórico do inesquecível “Teatro Leopoldina”...




P/ Nanda – Báh...tchê...como terminou esta noite ?

R/ Necão – Faz tempo, se eu não me engano terminou com todos os músicos num bar da “Getúlio”, num alto astral...altas pizzas e outros breguetes... o Júlio estava inteiro no movimento da vida de Lee... hei! Hei!... só quero dizer o seguinte: a música “cowboy” ficou estigmatizada dentro do movimento...feita em Porto Alegre...... a mesma coisa quando os “Eagles” fizeram na cidade de Winscow a canção “ Take it Easy”...a globalização , o lance sem fronteiras, sem discriminação, não importando se a canção fosse cantada em português ou inglês... isto tudo já estava nascendo ,aki xará, em Porto Alegre no final da linha do ônibus...só viu quem estava lá... a sonhada indústria do disco de Porto Alegre?!?!? Estava dormindo!

Lucas/ - Necão, escutei a gravação do Cowboy feita no “Mosch” em Sampa, sensacional , o andamento, o vocal,aquele solo de guitarra, no final aquela festa toda, se naqueles anos do “Mr. Lee”, vocês tivessem gravado em inglês...puxa... a Lee Company...era a patrocinadora...multinacional...bem que poderia ter feito uma ponte para o Hallai lançar esta música em todos os desfiles da Lee.

Necão/ - Quando gravamos nos estúdios da Continental, o Júlio estava em Nova Yorque, já falei no início, quando ele chegou, o Anele mostrou a gravação pra ele e na mesma noite o Júlio lançou no programa Mr. Lee . Ele primeiro colocou o instrumental , e falava em cima :- Feita aki , Xará, som autêntico de Lee, o instrumental do Hallai Hallai,rodagem máxima dos estúdios da Continental,o vocal do Hallai Hallai , o velho cowboy,pelas estradas de Lee. Depois o Júlio colocava em seguida a música com o vocal e falava mil outras coisas em cima... aquele momento foi indescritível...
o Júlio depois saiu do estudio , e nos disse: Eu estive lá, e parece que foram vocês , que passaram todos estes dias em Nova Yorque. Por isso que eu citei aquela história do “Eagles”,imagine se fosse nos Estados Unidos ,(tô falando da mentalidade empresarial), o grupo lá da Califórnia, de São Francisco (tipo, Rio Grande do Sul / Uruguaiana ) lançam esta canção num desfile da Lee, cheia de energia e falando de um cowboy que só tomava leite, a própria cena americana histórica, que fez a rota dos confederados do sul e dos da União do Norte.

Lucas/ - Mas Necão na verdade , não dá pra pensar assim os gringos estão na frente, eles é que inventaram esta coisa chamada” marketing”.

Necão/ - Aí, é que entra a geografia, o final da linha do ônibus, a polêmica ...O Rio Grande do Sul, pra mim, naquela ocasião, era uma espécie de Novo México sem fronteiras, sem portas, sem telhado, em que a maior ligação deles era com a terra e com o céu, o grande Saara da América do Norte...igual a gente,só que com a diferença de que as nossas fronteiras estavam viradas para um outro lado, as nossas portas também estavam abertas para outro tipo de som,os nossos telhados eram feitos de telhas de barro do fim do mundo, e a questão da terra e do céu tinha aquela dose generosa dos pampas do Rio Grande. Era a hora da grande virada, de colocar um antídoto em todas aquelas influências recebidas do centro do País (Rio / São Paulo) e formar nosso próprio mercado .
O Júlio fez o “marketing”, criou a necessidade, a Lee assinava em baixo... era só pensar um pouco... e fazer o que o Júlio pregava : O Vivendo a Vida de Lee vai ser coust to coust... leiam os críticos da época que escreviam, que aquele momento” era crer para ver e não ver para crer”... Hoje, falar disso assim, parece algo surreal , mas quem viveu o momento , sabe do que estou falando...tudo era possível.O mundo da era digital estava no útero e rebentaria logo depois,...”naqueles anos setenta , como hoje (2009) tudo estava a venda: não só as coisas do super mercado, a música também.
A contracultura começava a ser absorvida pelo establishment. A força das gravadoras era total e absoluta (majors)... me lembro que o Júlio já falava em rádios “FMs”, este assunto vai longe... Dylan na canção “Desolation Row”, diz assim: -Tocam todos apitos de brinquedo/ Você pode ouví-los soprar/ Se inclinar a cabeça o bastante/ Para fora da Travessa da Desolação / Onde adoráveis sereias flutuam/ E ninguém tem de pensar muito / Sobre a Travessa da desolação /
A verdade é o seguinte...a medida que o “Vivendo a Vida De Lee”, crescia , a extensão que já tinha sido conseguida pelo Júlio e pelos músicos permanecia baixa, pela miopía empresarial da Continental... me diz o seguinte...se não era para ter ampliado aquele estudio onde eram gravadas as músicas que o Júlio colocava no ar, os jingles comerciais poderiam ter sido produzidos pelos músicos do movimento (Lee),com isso o tamanho da( rede) Continental poderia ter usufruído melhor de todos aqueles talentos que circulavam pelos corredores , e muitas vezes não tinham nada para fazer. Toda tecnologia que estava vindo e que mudou a música e as mídias, poderia ter sido vinculada com a introdução da onda “FM” que a direção ignorou, ou não quis enxergar... a gente só falava com o Júlio, que era o único que ouvia e tinha a mesma vibração dos músicos em idéias e planos.
A Travessa da Desolação (Dylan), pra mim foi o final de todo o movimento , e o brutal é que as sereias estavam todas ali ,era só ouvir seus cantos.
- Vivendo a Vida Lee – Concerto nº 3 –

No dia 30 de abril(sexta feira) se apresentaram : Bobo da Corte/ Fernando Ribeiro/ Flor de Cactus/ Gilberto Travi/ Inconsciente Coletivo/ Metamorfose.
No dia 1ª de maio (sábado) se apresentaram:Bizarro,Hallai Hallai/Hermes Aquino/Mantra/ Status 4/ Élbia/Beto Barcellos.
Tudo isso aconteceu no ano de 1976 em Porto Alegre capital do Rio Grande do Sul/Brasil.

...continua na próxima postagem...>

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Crônica de Bob Dylan*




DYLAN*

                                                   BOB DYLAN *

  Escritos da revolução permanente.

Pelo sim
Pelo não
Bob Dylan é um talento original.




Doctrine : “Enquanto tiveres pés para andar, há de haver montanhas para escalar.”
(Bob Dylan)
* DÉCADA /80 -

Esta é a relação dos albúns que me fizeram chegar ao Mr. Tamborine Man , pelo qual fiz a tradução,versão para a gravação em São Paulo.




1º música :* Song to Wood /(Bob Dylan/1962/ 1ºalbúm) canção feita para o mestre Wood Gythrie
“ Bob” conheceu” Wood” em 1962/ Nova Yorque no hospital.







2º* Freewheelin (1963/ 2º albúm) tudo muda com este disco ,mudou a natureza da canção popular,transformou as palavras em armas.
Blowin in the wind tornou-se o hino do movimento de protesto americano.
“ Levanta-te de manhã e caminha de Olhos bem abertos. “ (Bob Dylan)




3º Masters of War/ vem na mesma linha de ataque a uma sociedade que faz crer que as guerras são necessárias para se conseguir certa liberdade fictícia . Senhores da Guerra em que Dylan pela primeira vez diz que deseja que morram “Espero que morrais/ E que a vossa morte chegue depressa”.
4º A Hard Rain’s A Gonna Fall / Uma canção de desespero /Foi escrita durante a crise dos mísseis de Cuba (1963)./O Mundo nunca esteve tão perto de um conflito nuclear.
A linguagem desta canção é fúnebre.A visão a beira de um abismo.
5º Oxford Town / É um ataque satírico a segregação racial nas pequenas cidades do sul dos EUA, como que uma canção reportagem.
6º/ 1963 /Bob Dylan /Participa do Festival de New Port e torna-se o Leader incontestado do movimento nascente da canção americana de intervenção.Uma nova consciência despertava apesar da histería da beatlemania.

7º* The Times They Are a- Changin’( É o seu terceiro albúm (1964))

Este albúm fecha o ciclo do Dylan propagandista e documentarista musical.
Dylan foi mais duro,mais sério,e também mais contraditório nas suas concepções sociais.Dylan antecipou o espírito da contracultura.


8º With God On Our Side /Esta música é um monumento fundamental deste disco .( disco/ The Times Are/iten 7) ,é uma das canções mais politizadas e pessoais de toda obra de Dylan .
A letra descreve as páginas mais obscuras da história Americana.



9º *Another Side of Bob Dylan / Editado 1964/ 4º albúm ruptura/Dylan tinha desertado da política e então começa a cantar canções pessoais. A cena musical ainda estava digerindo os seus albúns anteriores. A música Motorppsyco Nightmare , poema surrealista, fala com humor das aventuras de um vagabundo por uma das zonas mais reacionárias dos EUA,o Midwest.





10º* Bringing it All Back Home (5º albúm /1965) Foi um escândalo,uma parte do disco era acústica ,outra era elétrica,tendo permanecido em Londres Dylan ouviu todos os grupos:Beatles, Stones,Animals,Who. Dylan regressa a Nova Yorque com idéias novas e impressionado com o potencial da instrumentação e abre um novo caminho na música americana.Foi chamado de traidor e facista no festival de Newport, templo da música folk . Dylan tinha traído a causa politicamente e artisticamente.


11º A música/ Bob Dylan 11th Dream é uma canção onírica,alucinante através de uma América povoada por homossexuais,anões e prostitutas.Faz parte do albúm 5º de sua carreira( 10º item).


12º Mr. Tamborine Man /É um hino ao êxtase da música, a cor, as drogas/
É um escape da realidade e que se convencionou chamar “real”.
Dylan canta os músicos ambulantes, o senhor da pandeireta que nas ruas de Greenwich Village vendia” chocolate” cabeça de negro , escondidos nas cavidades do pandeiro.Dylan entrava num novo paraíso,em que o escape para parte alguma fazia romper todas as teorias políticas. A esquerda puritana podia ficar com Deus ao seu
lado.


13º It’s All Over Now, Baby Blue É a canção final e essencial deste Álbum
( item 10º ) Quem é Baby Blue? A explicação mais aceitável é que é uma nova projeção do próprio Dylan, um adeus reiterado ao seu antigo personagem, assim como ao seu antigo público, comprometido com a luta , mas eu acho que esta cançaõ pode ter sido a história de uma prostituta que começa uma nova vida.



14º *Highway 61 Revisited ( 6º albúm / 1965)/Este disco é a ruptura total,é um disco de rock. Dylan aparece acompanhado por alguns dos melhores músicos da cena rock. É considerado pelos experts ,uma das obras primas da música rock.







15º Like a Rolling Stone , foi considerada a canção mais explosiva, jamais gravada em vinil. Nunca antes se tinha conseguido verbalizar um texto tão complexo com um acompanhamento musical tão perfeito. Canção com 6 minutos .A mais requintada de Dylan,ela conta a história de uma garota que nas praias douradas de sua estupidez, pensava que pedir para comer era uma pose estética dentro das novas formas de expressão, até ver-se mendigar pelas ruas de N.Yorque,completamente só e perdida. Ela se sentia invisível dentro de uma cidade monstruosamente organizada. Assim a bela princesa, sem cavalheiros nem palhaços , tinha que ir para a saída do metrô e pôr-se à disposição de qualquer comprador de prazeres carnais.
(item 14º/ 6º albúm)


16º Highway 61 Revisited / É uma viagem pela estrada 61/
Uma viagem através da violência nos EUA. Inclusive nas íntimas e felizes
relações familiares/ (item 14º/ 6º albúm)


17º Tombstone Blues/ Dá-nos uma visão dos limites em que se desenvolve a vida contemporânea.Dylan, introduziu-nos numa serie de contos localizados em lugares históricos simulados e criados para o efeito. Quem imagina São João Batista a
torturar um ladrão,pois em Tombstone o comandante decidiu que o sol não é amarelo, e quem duvidar irá para o corredor da morte. Quem tem demasiado poder obriga seus lacaios a acreditar em histórias ridículas e não existe mais nada senão uma eternidade em termos de ignorância. (item 14º/6º albúm)



18º* Blonde To Blonde ( 7ºalbúm /Setembro 1966)
Os críticos emudeceram.Os músicos declararam que aquilo era insólito.Dylan foi considerado a figura mais genial dessa década de rock. Era um intrincado concept-album percorrendo todo seu universo pessoal, fluindo do caos e da desordem surrealista embebido ainda de uma empolgante visão poética e de uma envolvente sensualidade. Este album duplo é unanimente considerado o melhor de toda a obra de Dylan e, para muitos o melhor de toda a música rock.


19º Rain Day Women nºs 12 & 35 / Dá-nos, de certo modo, uma visão das relações sociais através de um jogo de palavras provocado pela repressão cultural. A mesma palavra (stoned)designa literalmente apedrejado, mas designa também, na linguagem da contracultura, alguém que está sob o efeito da droga, ou seja “pedrado” ou “com uma pedra”. Dylan diz na música –“ Toda gente devia apanhar uma pedrada”.
Se antes tinha cantado os seus sonhos de poeta social agora estava dentro de um círculo de pessoas que tinham perdido toda a esperança de uma mudança social para se refugiarem na gratificação dos sentidos que a música e as pedras lhe proporcionavam. ( 18ºitem/ Albúm 7º)


20º Leopard-Skin Pill-box Hat /Uma canção de humor devastador de Dylan atinge um dos seus pontos culminantes. (18ºitem/Albúm7)


21º Sad-Eyed Lady of The Lowlands/ É por muitos considerado a obra prima dentro da obra prima. É uma longa balada de mais de onze minutos preenchendo toda a quarta face do álbum.É um poema muito opaco, com um sentido e direção muito próprios,
mas extremamente dfícil de compreender. Fica o fato que só muito raramente uma mulher de sonho terá sido descrita com uma beleza tão selvagem.Na verdade é um Dylan desesperado e uma América cada vez mais putrefata.
.

22º* John Wesley Hardin ( 8º álbum) (janeiro-1968)
Um ano e meio depois de “Blonde”.Dylan tinha sofrido um grave acidente de moto ,tendo fraturado o pescoço. Ficou mais de um ano fora da cena musical.Dylan se desgatou muito neste ano que ficou fora com drogas pesadas (LSD e Heroina). Neste disco algo tinha mudado nele irreversivelmente. Este disco conta a história de um bandido e o poema esta tão repleto de alusões(referindo-se a ele mesmo) que , pelo seu simbolismo supõem-se autobiográfico.




23º All Along The Watchtower/ É um poema denso parecendo encerrar as palavras de um homem que se teria vendido ao sistema. (item 22º)(8ºalbúm)


24º Drifter’s Escape/ É Dylan perante os seus juízes, desta vez num Tribunal.



25º* Nashville Skyline(9º albúm)(1969) De um fulgor original,como folhas de relva,com estrelas,com Montanhas.Lp que marcou a minha vida para sempre, O clássico “GIRL FROM THE NORTH COUNTRY, se tornou um hino folk nos EUA.,(A garota
que Veio do Norte) ,LAY LADY LAY (Deite-se, Senhora, Deite-se) TELL ME THAT IT ISN’T TRUE (Diga-me que não é verdade) e a Balada TONIGHT I’LL BE STAYING HERE WITH YOU ( Esta Noite ficarei aqui Com Você ) Foi um disco com estrelas, e com alma Dylan encerrou Década de “60” com a cicatriz fechada.


Bob Dylan, semeou com sua obra uma das épocas mais empolgantes da história da música . O trabalho de Dylan ficará escrito nos fatos da década de sessenta que mudou o Mundo; o louco circo da cultura e das subculturas”.Se eu não tivesse passado por ela , não acreditaria que ela tivesse existido”.
Bob Dylan farejou tudo, foi um porta voz desta era (anos 60) da vida Americana,
"A década do eu”, como Wolfe a descreveu.



CANÇÃO PARA WOODY

Bob Dylan
A tradução da primeira música que Bob fez para o músico que o
acordou / WOODY GYTHRIE


Aqui estou a muitas milhas de casa/
Seguindo uma estrada que outros homens percorreram/
Vendo o teu mundo de pessoas e coisas/
Os teus pobres e camponeses e príncipes e reis/


Hey, Hey, Wood Gythrie, escrevi uma canção pra ti/
Sobre um estranho muito velho revelando-se a meus olhos/
Parece doente e tem fome e cansaço e está em pedaços/
Tem ar de moribundo e ainda agora nasceu/


Hey, Wood Gythrie, mas eu sei que tu sabes/
Tudo o que eu estou a dizer e muito mais/
Canto para ti e não digo o bastante/
Pois poucos homens há que tenham feito o que fizeste/


Aqui saúdo também Cisco e Sonny e Leadbelly/
E toda a gente boa que contigo viajou/
Saúdo os corações e as mãos dos homens/
Que surgem com a poeira e partem com o vento/


Vou-me embora amanhã, mas podia ser hoje/
Pela estrada fora num dia qualquer/
A última coisa que me agradaría fazer/
Seria dizer que também percorri um duro caminho/
- Fim –


Bob Dylan, no final de 1961 chega finalmente a Nova Yorque para ver Woody Gythrie, então hospitalizado. Bob sempre viu nele um talento excepcional. Wood, se emociona e lhe dá inúmeros conselhos e sua amizade.
Robert Allen Zimmerman, seu verdadeiro nome, nasceu a 24 de maio de 1941 em Duluth, Minnesota/EUA. Mudou, em 1960 o seu nome para Bob Dylan (de Dylan Thomas/ poeta americano)


- Mr. Tamborine Man -
Esta pesquisa foi feita por mim na metade da década de oitenta.
Pensei, naquela altura, que uma versão para alguma música de Dylan poderia dar um novo flash no repertório do Hallai.
Para definir qual canção, fui procurar no “quintal da década de sessenta”,qual artista que poderia entrar em nosso repertório e cheguei no personagem complexo de Bob Dylan. Como sempre fui chegado em mitos e lendas e por ter escutado muito o álbum “Naschville Skiline” num velho “prato “ que eu tinha no Bairro da Glória , Bob Dylan foi o escolhido.
Para chegar ao Mr.Tamborine Man, percorri vários caminhos, entre Porto Alegre e São Paulo a procura de informações (não existia internet- década de /80), fiz várias traduções para entender,li muito sobre o poeta, escutei todos os discos lançados por Dylan na década de sessenta, visitei todos os sebos de São Paulo e Porto Alegre, em nossa cidade não encontrei quase nada, em Sampa muita coisa em livros, encontrei a maioria dos discos na praça Benedito Calixto, no bairro Pinheiros.
Fiz uma “radiografia” minuciosa nas canções de Dylan /60, e depois de muitos dias e noites, cheguei no MR. TAMBORINE MAN. Primeira coisa que fiz foi traduzir a música com meus parcos conhecimentos da língua inglesa,comprei um dicionário de expressões idiomáticas e também livros da década de sessenta para entender a “onda”, que eu na verdade tinha vivido na minha adolescência.
Tinha ouvido muito pelo rádio aquelas canções que mudaram a forma de verbalizar todas aquelas viagens “metafóricas” dos poetas e dos músicos. (-) Enfim, mãos a obra / A IDÉIA de Dylan na canção não foi violentada, pelo contrário , apenas o número de versos é que foi simplificado, mas assim mesmo coloquei mais versos que o grupo”The Byrd’s , banda que gravou a música nos anos “ “60”. Mr. Tamborine Man, na verdade era um simbolismo daqueles jovens que vendiam drogas (chocolate /cabeça de negro) em GREENWICH VILLAGE dentro de um pandeiro, pelas ruas do bairro. Quando verti, a idéia para o português, tive uma antevisão de toda problemática que estava para acontecer no Brasil, o Collor tinha ganho as eleições e a geração “camelô”, entrou de malas e bagagens no país. Ali, foi a bomba “C”, solta no solo brasileiro. “Senhor Camelô”, era o nosso “Mr. Tamborine Man”,porém com uma dramaticidade muito mais social do que aquela de jovens vendendo “drugs”,o que no começo vinha com toda aquela estética moderna amparada por músicas da moda nos EUA. Um mês antes do Hallai-Hallai entrar em estúdio a música estava pronta e mostrei para o pessoal do grupo.Uns ficaram assim ..surpresos e ... gostaram....quando mostrei para o nosso produtor,e contei sobre todo trabalho exaustivo da pesquisa e o que representava aquela canção no “Gran Monde”, Michael (3M), ficou entusiamado e emocionado, não sabia de todo aquele aspecto histórico da canção que ele gostava muito, e disse : Nós vamos vender 500 mil cópias na primeira rodagem...podem apostar..e se preparem ! O pessoal do grupo nunca soube disso, aquela música agilizou a entrada no estúdio do “Mosch” do projeto Hallai. Eu não poderia esperar mais, e o grupo ( Paulinho ,Robson & Jorge) que estavam hospedado no “Lord Hotel”, no bairro Santa Cecília (Padroeira dos Músicos) estavam precisando de trabalho. Levei 6 meses para aprontar a letra e colocá-la em (E) mi maior, O original é em (D), ré maior.Aquele novo tom deu uma “cara” Hallai a música, tirou aquele toque solo americano e revitalizou a canção que ficou feita para vocal Hallai. A liberação da editora que detinha os direitos da canção, foi demorada, eles custaram a remeter a gravadora o documento de autorização. Foi estudada cada palavra da adaptação.
Tudo isso acontecia nos bastidores. Eu e o Michael vivíamos toda esta longa espera , e os problemas estavam a nos rodear.
O restante desta história está no depoimento . É imperdível o que aconteceu. Aguarde !? (década de 80 /isto aconteceu)


“hey ! Mr. Tamborine Man/ play a song for me/
I’m not sleep and there is no palce I’m goig to/
Hei ! Mr.Tamborine Man/ play a song for me/
In the jingle jangle morning I’ll como following you/
(
(B.Dylan)




MR. TAMBORINE MAN
(Sr.Camelô)
by Necão



Hey, sr. Camelô

Toque uma canção pra mim/
Estou sem sono e não tenho para onde ir/
Hey, sr. Camelô
Toque uma canção pra mim/
Na manhã ruidosa eu irei contigo/


Embora saiba que o império/
Da noite se desfez em areia/
Me escapou por entre os dedos/
Me deixou aqui cégo/mas ainda sem dormir
O meu cansaço espanta-me/
Mas tenho as pernas firmes/
Só não tenho ninguém pra ver/
E a velha rua vazia/
Esta demasiada morta pora sonhar/


Hey, sr. Camelô / (refrão)


Leva-me em viagem/
No teu estonteante barco mágico/
Estou pronto a ir para qualquer lado/
Estou pronto a desaparecer/
Lança o teu encantamento/
Que eu prometo segui-lo/
Os meus pés estão pesados/
As minhas mãos vazias/
Os meus sentidos amarrados/
O meu tambor de palhaço esfarrapado/
Embora possa ouvir danças loucas ao sol/


Hey, sr. Camelô (refrão)


Pelas ruínas do tempo/
Bem além das folhas geladas/
Distante do alcance da mente/
Longe de uma tristeza louca/
Recortado pelo mar/
Cheio de areia circenses/
Camelô, das praias ventosas /
E, de todas as esquinas do mundo/
Coloque a venda de imediato/
Todos os sonhos da mente/
Assim eu esqueço o dia de hoje/
Até amanhã !


Hey, sr. Camelô (refrão)